Filipe Roque, Gestor

Sem-abrigo salvam liberdade de imprensa

A Hungria voltou novamente às manchetes da imprensa pelos piores motivos no 60º aniversário da revolução.

1956 -2016. Este ano comemoram-se os 60 anos da revolução húngara contra a ocupação da URSS. Em 1956, estudantes em Budapeste manifestaram-se contra a opressão comunista imposta pelo estalinismo pós guerra mundial. Nesses anos, a iniciativa privada foi banida e os bens das pessoas confiscados para o partido. Para um povo historicamente rebelde, livre e empreendedor não foi surpresa que a primeira revolta fosse húngara. A revolta de 10 milhões de húngaros contra 200 milhões da União Soviética durou 13 dias.

O movimento foi esmagado com a força dos mil tanques russos que entraram em Budapeste para restabelecer a ordem, matando milhares. Os revoltosos, mesmo sabendo que o “oeste” não viria ajudar, foram muito inventivos e resistiram com os meios que tinham. Por exemplo, colocavam-se tigelas de sopa nas estradas, levando os tanques russos a pensar que eram minas. Ao pararem, os tanques era inutilizados com cocktails molotov.

Seguiu-se uma dura repressão e a Hungria teve de esperar mais algumas dezenas de anos para conseguir a ambicionada liberdade, mas foi esse movimento, esse grito, que marcou o início do fim do bloco soviético e do seu controlo sobre a Polónia, Checoslováquia e Hungria.

O que se viveu nas comemorações destes 60 anos foi ainda mais simbólico pela situação política atual na Hungria. Há um sentimento generalizado de que as liberdades adquiridas nos anos 90 podem estar em risco se o atual governo no poder – liderado pelo primeiro-ministro Viktor Órban, do partido de centro direita Fidez – seguir o rumo atual. Desta vez não falamos de comunismo soviético, falamos de uma atitude eurocética, anti-imigração, anti-Europa e anti-liberdade de expressão.

Na mesma linha de outros “ismos” atuais, como o “Putinismo” na Rússia e o “Erdoganismo” na Turquia, o “Orbanismo” é uma variante menos pura de autoritarismo, mais alinhado com a maior parte dos valores gerais da União Europeia. No entanto, a forma como o seu partido tem conseguido silenciar os canais de comunicação independentes faz inveja até a Erdogan, que tem seguido a mesma linha, mas de forma mais “crua”.

Desde a construção de cercas e muros anti-migração nas suas fronteiras no verão passado – a vergonha da Europa – que a Hungria está sob a mira e críticas da opinião pública mundial. No passado dia 8 de Outubro, o jornal de esquerda Népszabadság foi fechado pela Media Works, proprietária do jornal, devido a supostas dificuldades financeiras. No entanto, a opinião pública acredita que foi devido à sua posição crítica ao Governo. A Hungria voltou novamente às manchetes da imprensa pelos piores motivos e o 60º aniversário da revolução reacendeu o debate: “Ainda temos liberdade de expressão e de imprensa na Hungria?”

A solução que a equipa do jornal encerrado encontrou para voltarem a ser ouvidos foi, no mínimo, genial! Conseguiram um acordo com a revista que é vendida nas ruas pelos sem-abrigo e pensionistas com reformas pequenas, semelhante à nossa revista Cais, para distribuírem a edição. Com alguma publicidade na sua página do Facebook, conseguiram proporcionar muitos sorrisos aos sem-abrigo de Budapeste: 12 mil exemplares vendidos apenas a 20 de Outubro!

Em direto, no Euronews, um dos reformados referia com alegria: “Desde que a rádio e a televisão começaram a falar da publicação, todos me pedem a revista. Tenho aqui 200 revistas e penso que vou vender todas hoje.” A equipa do jornal fechado continua a publicar até decidirem que passos vão dar a seguir.

 

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