Rui Teixeira, CEO da Heaboo

Se falar em dinheiro, já me entende?

As campanhas de consciencialização já foram feitas e refeitas. Apesar disso, em Portugal, os dados apontam para mais de 3 milhões de metros cúbicos de água desperdiçada por ano.

Na Europa, os edifícios são responsáveis pelo consumo de 40% de energia; os transportes e a indústria representam, individualmente, cerca de 30% do consumo total de energia. Os principais “culpados” deste consumo elevado dos edifícios são os sistemas de climatização, responsáveis por cerca de 60% do consumo total dos edifícios, seguidos pelo aquecimento de águas sanitárias, que, por sua vez, é responsável por cerca de 25% desse consumo.

A isto soma-se o grave problema do desperdício. Como pode o ser humano desperdiçar um recurso que está a tornar-se escasso? Em Portugal, os dados apontam para mais de 3 milhões de metros cúbicos de água desperdiçada por ano. Mas onde há desperdício de água? Se o cidadão comum pensar no dia a dia, facilmente identifica as práticas mais simples. Lavar a loiça com a água a correr, abrir a água e esperar que aqueça para o banho matinal, deixar a água a correr enquanto lava os dentes…  Confesse. Fez o mesmo exercício que eu e pensou exatamente nestes momentos do quotidiano.

Num estudo de 2010, realizado pela ANQIP – o mais recente desde que há registo –, estima-se que em Portugal o gasto de água em chuveiros e autoclismos represente 70% a 80% do consumo de água nos edifícios residenciais. A somar ao desperdício provocado pelas práticas pouco responsáveis existem ainda problemas de eficiência hídrica com uma grande parte dos equipamentos que continuam a ser instalados, para além do desperdício com roturas e fugas nas redes municipais de distribuição que, em Portugal, representa cerca de 400 milhões de litros de água potável, todos os dias!

Segundo a ANQIP, o desperdício de água em casa atinge 750 milhões de euros por ano! Agora que captei a atenção e falei de dinheiro, talvez estejamos a falar a mesma “língua”. A verdade é que, se multiplicarmos este valor por todos os espaços não-habitacionais e numa lógica crescente, os valores podem ser incalculáveis.

Se relembrarmos o caso de Las Vegas, facilmente associamos a crise do desperdício de água com o dinheiro. Em média, Las Vegas fornece água para dois milhões de habitantes e 35 milhões de visitantes, contando com um lago que está cada vez menor como única fonte de abastecimento de água. Houve, por isso, a necessidade de implementar um conjunto de medidas que racionalizem o consumo de água. A par do aumento do preço do mᵌ, Las Vegas cobra mais por litro aos utilizadores de grandes volumes de água (ao contrário do que acontece noutras cidades). Mas as medidas não ficam por aqui. Ora vejamos: as casas novas não podem ter relva nos pátios dianteiros; os quintais devem ter menos de 50% de ervas, durante o verão não é permitido regar entre as 11h e as 19h, altura em que o pico de calor leva à absorção mais imediata da água; e as multas podem começar nos 80 dólares se algum técnico identificar desperdício de água nas casas (escorrer, torneira mal fechada, etc.).

As campanhas de consciencialização já foram feitas e refeitas por diversas vezes. Com sucesso ou não, nas últimas décadas, já muito se disse e fez para alertar o ser humano para o consumo responsável e eficiente dos recursos, especialmente um bem tão precioso como a água. Campanhas à parte, o ser humano será sempre um dos seres mais egoístas, mas também o mais inteligente, sendo capaz de encontrar soluções para os problemas que ele próprio cria.

Aliar a inovação à eficiência e sustentabilidade ambiental é, sem dúvida, um dos trunfos para o futuro. As casas podem ser pensadas para ser autossustentáveis. E quem diz casas, diz edifícios de escritórios, carros, gadgets e tantos outros elementos que, à data, consomem, por segundo, mais energia do que aquela que produzem. E agora, se falar no dinheiro que também se poupa, já me entende?

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