O aumento da esperança de vida por um lado e da qualidade do ensino por outro, faz com que, numa mesma empresa familiar, várias gerações progridam em paralelo, com evidente necessidade de estabelecimento de novos equilíbrios e um diferente balanceamento entre competências e cargos. Luís Parreirão, um dos membros dos diversos painéis do seminário ‘Potenciar o legado – o caminho de crescimento das Empresas Familiares’, organizado pela consultora KPMG – presente em testemunho do grupo Mota/Engil, chamou a atenção para isso mesmo.
“Atinge-se a maturidade mais cedo, trabalha-se até mais tarde. O que coloca um problema: o do convívio necessário entre gerações dentro das empresas” – por um lado gerações mais velhas que querem ter mais tempo de vida profissional e, por outro, gerações mais novas apetrechadas com conhecimentos mais eficazes. É o equilíbrio entre forças que não têm necessariamente de estar alinhadas que deve ser uma das preocupações das organizações familiares, disse. Nada disto tem de ser necessariamente mau – e não o é, pelo contrário, disse, precisamente se o alinhamento for conseguido.
O resto não mudou: as empresas têm, na ótica de Luís Parreirão, “um legado a transmitir, consubstanciado “numa marca identitária de origem muito relevante”, onde se misturam “sensibilidade e apetência pelo risco e pelos investimentos – que se bebem no seio da família”. Para Luís Parreirão, “a chave do sucesso passa por saber reinterpretar o legado entregue” às novas gerações.
Isabel Furtado, CEO da TMG Automotive, também presente no painel, acrescentou que as empresas familiares ‘escondem’ outra realidade que deve ser levada em linha de conta: a presença cada vez mais numerosa de mulheres. Cerca de 50% do capital e dos acionistas das empresas familiares são mulheres – um legado do fim dos morgadios e suas incongruências.
Sendo certo que as empresas familiares tendem a ‘morrer’ menos que as outras, Isabel Furtado explicou que, na TMG Automotive, “o legado de profissionalismo, com a família e os negócios muito bem separadas” – num quadro em que “tradicionalmente não temos membros da família em gestão direta” – implica que “quem estiver mais apto é quem entra”. No seu caso, “ser mulher num país periférico, não podia ser pior” do ponto de vista da consolidação da sua posição de liderança. “Se há empresas inovadoras, são as empresas familiares”, que de algum modo souberam incorporar uma realidade que estava subentendida mas não explanada nas empresas: “as mulheres são a espinha dorsal da família. A maior parte não estava em gestão ou a formar empresas, porque tinham tarefas familiares. O que não quer dizer que não gerissem: já nasceram gestoras, para que os homens pudessem dedicar-se às empresas”.
No caso da TMG, “a família fica na portaria”. Ou então não: “não somos uma empresa típica”; “o meu primo homem trata da moda, e eu trato dos carros”.
Para José Germano de Sousa, presidente da Associação das Empresas Familiares, também presente no seminário, as empresas com base familiar “transmitem legados de excelência. Os ativos intangíveis são aquilo que nos identifica”, num contexto em que “é preciso saber ler os riscos associados à sucessão”, sob pena de as coisas correrem mal.
Para isso, contam com o contributo do legislador: “é preciso estabilidade legislativa, lisura na promoção de investimento, temos de ser mimados e não perseguidos”. E também, como seria de prever, “estabilidade na área fiscal”.
Cláudia Reis Duarte, secretária de Estado dos Assuntos Fiscais – que esteve no seminário em substituição do ministro da Economia, Pedro Reis, assegurou isso mesmo: estabilidade fiscal. Ou melhor ainda: depois das mexidas em sede do IRS, seguem-se as que estão destinadas pelo programa do Governo no que diz respeito ao IRC: a descida da taxa de referência de 21% para 15%. Quanto ao resto, nenhuma novidade: a plateia não estaria com certeza à espera de uma espécie de discriminação positiva das empresas familiares em sede de impostos e Cláudia Reis Duarte disse exatamente que isso não acontecerá.
“São medidas para fomentar o investimento. Potenciar capacidade de inovação das empresas. Para isso, a estabilidade fiscal é essencial – e nós queremo-la”. Sendo certo que sucede por vezes que as empresas familiares têm dificuldades acrescidas de acesso aos canais de financiamento, nomeadamente mercado de capitais, é esse o foco do Governo: acabar com burocracias e outros impedimentos ao normal desenvolvimento das empresas.
Coube a Luís Magalhães e Sandra Aguiar, ambos da KPMG, apresentar o estudo global sobre empresas familiares, que agregou depoimentos de quase 2.700 empresas, das quais 100 portuguesas, num total de 80 países. Em Portugal, as empresas familiares têm uma idade média de 67 anos – o que tem impacto nas gerações presentes nas organizações e na detenção de participações em capital.
As empresas familiares mais bem-sucedidas – com um desempenho financeiro e níveis de sustentabilidade elevados – “tendem a apresentar fortes índices de legado e de empreendedorismo transgeracional. O que sugere a possibilidade de existência de um vínculo entre aqueles fatores”, explicou Sandra Aguiar.
O seminário decorreu no Porto e será agora repetido em Lisboa no próximo dia 20 de junho, quinta-feira – desta vez com a presença de Pedro Reis, que estava ‘escalado’ para ir ao Porto mas acabou por não o poder fazer.