Santa Casa estava em “rotura de tesouraria” quando Ana Jorge assumiu o cargo

A ex-provedora revela que quando chegou ao cargo fez um levantamento da situação económica e financeira da Santa Casa, tendo evidenciado que a instituição estava com uma rotura de tesouraria de 25 milhões de euros, sendo necessário reforçar mais de 50 milhões para conseguir cumprir compromissos.

Santa Casa estava em “rotura de tesouraria” quando Ana Jorge assumiu o cargo
A provedora exonerada da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML), Ana Jorge, intervém perante a Comissão de Trabalho, Segurança Social e Inclusão, durante a sua audição sobre a situação financeira da instituição e o negócio da internacionalização dos jogos sociais, bem como sobre a exoneração da Mesa, na Assembleia da República, em Lisboa, 15 de maio de 2024. ANTÓNIO PEDRO SANTOS/LUSA

A provedora exonerada da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, Ana Jorge, está a ser ouvida numa audição parlamentar. Ana Jorge afirmou que quando chegou à Santa Casa, em maio de 2023, a instituição estava com uma rotura de tesouraria de 25 milhões, e que os salários de setembro estavam em risco.

Ana Jorge revela que quando chegou fez um levantamento da situação económica e financeira da Santa Casa, tendo evidenciado que a instituição estava com uma rotura de tesouraria, sendo necessário reforçar mais de 50 milhões para conseguir cumprir com os seus compromissos, incluindo com as despesas de pessoal.

No entanto, a provedora que “a atual situação económica e financeira não compromete a missão primordial da Santa Casa de apoio aos mais desfavorecido” e que a instituição já não se encontra em rotura de tesouraria.

A provedora afirma que o antigo provedor deixou previsões de receita com venda de imóveis demasiado altas, e uma queda de 90 milhões entre 2021 e 2022 no saldo de tesouraria da Santa Casa.

Perante uma situação “de rutura iminente de tesouraria” a Santa Casa decidiu tomar um conjunto de medidas de sustentabilidade financeira. Questionada sobre se estas medidas foram entregues ao Governo, Ana Jorge garantiu que foram entregues à ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, Maria do Rosário Ramalho, a 12 de abril.

Ana Jorge explicou que a Santa Casa é uma instituição com uma “estrutura de grande dimensão” e com “excessivos níveis hierárquicos”. A provedora exonerada juntamente com a mesa decidiu baixar o limite para aprovação das despesas, de forma a existir um “maior escrutínio”.

Juntamente com esta redução, Ana Jorge avança que foram também suspensas as admissões, promoções e renovações das comissões de serviço, e foi implementado um “plano faseado de redução da estrutura orgânica da Santa Casa”, segundo a provedora exonerada esta medida equivale a uma redução de um milhão de euros por mês.

Sobre a acusação da atual ministra, Maria do Rosário Ramalho, de “benefício próprio” à mesa da Santa Casa, Ana Jorge salienta que esta mostra total desconhecimento por parte da ministra, revelando que as chefias não têm atualização salarial desde 2009 e que os vencimentos são fixados pelo Governo.

A renegociação dos contratos de prestação de serviços ao Serviço Nacional de Saúde (SNS) permitiu um aumento de cinco milhões de euros na receita da Santa Casa a partir de 2024, segundo revelou a provedora exonerada.

Outra medida tomada pela mesa foi a redução de apoios e subsídios a diversas entidades e eventos, nomeadamente a redução de dois milhões de euros em apoios ao desporto.

A provedora revela que o ‘atraso’ na entrega das contas da Santa Casa foi autorizado pelo Tribunal de Contas e pela ex-governante Ana Mendes Godinho, depois da provedora ter sugerido a realização de uma auditoria forense à Santa Casa Global, empresa de internacionalização, e uma auditoria financeira às contas de 2021 e 2022.

Ana Jorge afirma que as contas de 2023 foram positivas, com um resultado positivo de 2,2 milhões, mesmo sem ter sido realizada a venda orçamentada de 60 milhões de euros em património.

Questionada pelo Chega sobre a injeção de 34 milhões de euros por serviços prestados durante a pandemia, a provedora revela que este dinheiro não foi uma injeção, mas sim o pagamento de serviços prestados pela instituição durante a pandemia.

A provedora relembra que a primeira reunião com a atual ministra do Trabalho foi realizada a 12 de abril, na qual a ministra mostrou-se surpreendida pela provedora não ter requerido uma reunião mais cedo.

Nessa mesma reunião a ministra perguntou pelo plano de restruturação, ao qual Ana Jorge referiu que não tinha, mas que estavam implementadas medidas. Segundo a provedora a ministra perguntou também sobre “quantos vai despedir”, tendo Ana Jorge revelado que “nenhum”.

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