Filipe Garcia, Economista Conselheiro; IMF, Informação de Mercados Financeiros

Salvar, mas deixar cair

Na sequência da crise de 2008, os bancos beneficiaram de 'bailouts' sem mudar os seus donos. As indicações mais recentes indiciam um padrão de atuação diferente.

Há uma semana, as autoridades norte-americanas decidiram encerrar o Silicon Valley Bank (SVB), mas garantiram completamente os depósitos para impedir um contágio ao resto do sistema bancário. Nem os acionistas nem os obrigacionistas foram protegidos, perdendo tudo.

Este caminho, que tem algumas semelhanças com a resolução do BES em Portugal, tem a vantagem de impedir uma situação de risco moral (moral hazard), que beneficiaria os proprietários do banco.

Na sequência da crise de 2008, o modelo seguido tinha sido diferente. Os bancos beneficiaram de bailouts, aos quais se emprestou dinheiro suficiente para evitar a sua queda, mas sem mudar os seus donos. Ou seja, salvaram-se os bancos e não se deixaram cair os acionistas e detentores de dívida.

Em Portugal, esse foi também o modelo seguido, com a utilização das chamadas obrigações contingentes convertíveis (Coco’s) que permitiram manter a estrutura acionista das instituições.

As indicações que vieram dos EUA e, parcialmente dos supervisores suíços em relação ao Credit Suisse, indiciam um padrão de atuação que poderá estar na mente dos bancos centrais.

Primeiro, facilitam-se linhas de liquidez, eventualmente sem haircuts aos ativos apresentados como colateral, para que os bancos possam fazer face a eventuais resgates de depósitos. Não sendo suficiente, avança-se com uma intervenção formal, mas em que agora se sacrificam os acionistas, os obrigacionistas juniores e, eventualmente, os credores seniores.

Mantêm-se os demais compromissos do banco no imediato, nomeadamente o negócio corrente e relações de contraparte. O que aconteceria aos produtos estruturados depende da avaliação de risco sistémico.

Os depósitos, por sua vez, estarão totalmente defendidos, mas sem uma alteração formal dos mecanismos de garantia para permitir uma certa discricionariedade no tratamento das situações e para não “matar” o mercado obrigacionista.

Relacionado

Certificados de Aforro voltam a bater oferta da banca em depósitos em todos os prazos

Certificados de Aforro voltam a bater oferta da banca em depósitos em todos os prazos

Maria Teixeira Alves31 Ago
A dívida pública de retalho continua a oferecer as rentabilidades mais atrativas para as poupanças em Portugal, ultrapassando de forma consistente a remuneração média praticada pelos principais bancos comerciais. Numa altura em que o setor bancário se mantém confortável em termos de liquidez e sem incentivos para acelerar a subida dos juros, os Certificados de Aforro destacam-se como a opção mais rentável e acessível para o pequeno investidor.
Lucros dos cinco maiores bancos caem 2,7% no primeiro semestre, mas mantêm-se acima dos 2,5 mil milhões

Lucros dos cinco maiores bancos caem 2,7% no primeiro semestre, mas mantêm-se acima dos 2,5 mil milhões

Maria Teixeira Alves5 Ago
Cinco maiores bancos lucram 2,54 mil milhões no primeiro semestre apesar da pressão na margem financeira. Mas enquanto o BCP acelera com um crescimento de quase 13%, o Novobanco e o BPI desaceleram fortemente (-15,6% e -13%), e o Santander regista uma quebra de quase 5%. A subida da CGD foi de apenas 2,2% e sustentada em parte pela libertação de provisões. No Novobanco a queda aparatosa é explicada pelo impacto de custos extraordinários associados ao processo de venda do banco ao Groupe BPCE.
Quatro grandes bancos mantêm lucros de 2,17 mil milhões no primeiro semestre. BCP destaca-se

Quatro grandes bancos mantêm lucros de 2,17 mil milhões no primeiro semestre. BCP destaca-se

Maria Teixeira Alves3 Ago
Os quatro bancos portugueses que já apresentaram contas no primeiro semestre de 2026 — CGD, BCP, Santander e BPI — somam 2.170,6 milhões de euros em lucros, em linha com o ano anterior. Mas o montante agregado esconde dinâmicas muito distintas, pois, enquanto o BCP acelera com um crescimento de quase 13%, o BPI desacelera fortemente (-13%) e o Santander regista uma quebra quase de 5%.