Gosto de trabalhar de peito aberto. Só sei trabalhar de peito aberto. De porta aberta, em voz alta, à vista de todos e ao alcance de todos. É isso que entendo ser uma condição fundamental para o exercício das minhas funções de professor e de gestor e seguramente o seria no âmbito de qualquer outro mister – trata-se de um pressuposto de transparência e lealdade para com as organizações e as pessoas que as servem. Existem riscos, é verdade, acarreta exposição, alarga o ângulo de crítica e potencia o escrutínio, mas é assim que deve ser. Por isso continua a impressionar-me a atitude de tantas pessoas, com que me vou cruzando nos mais variados teatros profissionais, que vivem nos gabinetes, trabalham no isolamento, fogem do confronto intelectual e buscam conforto no espaço que existe entre os pingos da chuva.
Considero esse posicionamento uma ameaça às instituições, uma vez que se assemelha a um fato camuflado desenhado à medida e concebido para isso mesmo – para camuflar –, acabando por subtrair à esfera “pública” capacidade de avaliação e poder de crítica, com o inerente preço a pagar, que é, nos casos mais benévolos, a ineficiência. Chamo a isto “viver no armário” ou “trabalhar no armário” e, conhecidas que são as propriedades habilitantes para o mercado de trabalho que possuem as denominadas soft skills, a aprendizagem de metodologias anímicas de abordagem à profissão não será seguramente a mais irrelevante delas. Num país que, como o nosso, continua a registar taxas de desemprego jovem assustadoramente elevadas (segundo o relatório “Tendências Globais de Emprego para a Juventude 2015” recentemente divulgado pela OIT, Portugal possui, tal como a Grécia, uma taxa de desemprego jovem na casa dos 35%, para uma taxa de 16,6% de média da União Europeia), é fundamental educar os jovens relativamente à forma de encarar os deveres profissionais que lhes serão um dia cometidos.
António Costa deveria, aliás, preocupado que está com o desemprego jovem, como declarou há dias no Congresso da JS, exortar os seu próprios quadros a definirem-se e afirmarem-se, a saírem da sombra e revelarem as suas verdadeiras ânsias. Como vale para qualquer colaborador de qualquer organização, pessoas nos partidos desmotivadas, cínicas ou renitentes prestam invariavelmente um mau serviço. E por isso também quero aqui fazer esse apelo, pois continuo preocupado com um dos partidos-pilares da nossa democracia, desde o dia em que vi Mariana Mortága ser aplaudida com mais entusiasmo pelos jovens (e não tão jovens) quadros do Partido Socialista do que o são os seus próprios dirigentes. E se exortei já os jovens lobos do PSD a mostrarem-se (mas parece que afinal estão mesmo extintos), desafio também a juventude partidária do PS: não vivam tristes nem conformados! Desertem para o Bloco, abandonem o centrão cinzentão, rejuvenesçam o PCP, revoltem-se, revelem-se! Saiam do armário!