O novo regulamento da UE sobre o roaming na Europa, em vigor desde junho 2017, foi recebido com grande entusiasmo pelos consumidores europeus. É fácil entender a razão, uma vez que os custos com comunicações são das principais fontes de despesa para quem viaja. E já todos passámos pela experiência de regressar de viagem e receber uma fatura inesperada de telecomunicações.
Mas, surpreendentemente, os benefícios destas novas regras não estão circunscritos a quem viaja frequentemente pela Europa. A proposta “Roam Like Home”, tal como foi desenhada pela comissária Neelie Kroes, é um convite à arbitragem e à infração.
Neste momento, muitos clientes na Alemanha e França devem já estar à procura de um cartão SIM polaco de forma a ter acesso a preços mais baratos. E a verdade é que com a velocidade a que este tipo de oportunidades surgem e se aproveitam nas redes sociais e nos canais digitais, se os operadores nada fizerem, rapidamente irão sentir o impacto na sua receita.
O principal aspeto ignorado pela Comissão Europeia foi o papel das taxas de roaming, sobretudo numa era de hipermobilidade. Os custos de implementação e operação de uma rede na Alemanha, Polónia ou Roménia são muito diferentes e não podemos dar oportunidade às pessoas de utilizar um ativo sem que se pague o “preço justo” por ele.
Segundo uma análise da Strand Consult, a nova regulamentação de roaming poderá levar os “operadores móveis na Europa a perder entre 20% a 40% do seu volume de negócios e a indústria a perder até 75% das suas receitas”, tendo em conta as diferenças de preços nos 27 países da UE.
Para tentar mitigar estes efeitos, a Comissão Europeia estabeleceu uma política de utilização justa, definindo um número máximo de dias de roaming ao longo de quatro meses. No entanto, as fraudes de roaming internacional vão proliferar enquanto os operadores não conseguirem identificar e prevenir este tipo de fraude. Quem irá pagar os “almoços grátis”? Infelizmente, todos nós.
As consequências de tais incentivos são preocupantes e abrangentes para a indústria, uma vez que desencorajam os investimentos em infraestruturas e afastam potenciais investidores, o que se pode traduzir em comunicações de pior qualidade para todos, numa altura em que o consumo de dados está a crescer exponencialmente.
Os operadores devem fechar rapidamente esta “janela”, aproveitando as suas plataformas de gestão de risco e implementando motores de controlo para detetar/lidar com este tipo de fraude. Um outro caminho interessante a seguir é acelerar a sua atividade de M&A em países com preços baixos e promover a harmonização internacional de preços, para conseguir estancar a fuga de receita a médio/longo prazo.
As operadoras de telecomunicações precisam de agir rapidamente e reforçar a mensagem de que não irão tolerar comportamentos fraudulentos. Não o fazer, poderá ampliar ainda mais o impacto na economia europeia e na qualidade das comunicações.