Reforma laboral aprovada pode gerar “desemprego massivo” e acelerar emigração de qualificados, defende USI

Paulo Gonçalves Marcos considera que o diploma, que seguirá agora para a Assembleia da República, mantém uma visão "punitiva" para os trabalhadores. "Se o anteprojeto do Governo passar nos moldes que se conheceram, iremos ter desemprego massivo, baixa de remunerações, aumento da emigração dos mais qualificados e o reforço do padrão de especialização em sectores de mão-de-obra intensiva e mal paga", afirma, numa crítica que abrange tanto a substância da proposta como o próprio processo de concertação social.

Reforma laboral aprovada pode gerar “desemprego massivo” e acelerar emigração de qualificados, defende USI
Cristina Bernardo

Paulo Gonçalves Marcos, presidente do Sindicato Nacional dos Quadros Técnicos e Bancários (SNQTB) que está integrado na União dos Sindicatos Independentes (USI), criticou, em declarações ao Jornal Económico, a proposta de reforma laboral aprovada pelo Governo em Conselho de Ministros esta quinta-feira, alertando para riscos de desemprego em massa, compressão salarial e fuga de trabalhadores qualificados.

Paulo Gonçalves Marcos considera que o diploma, que seguirá agora para a Assembleia da República, mantém uma visão “punitiva” para os trabalhadores. “Se o anteprojeto do Governo passar nos moldes que se conheceram, iremos ter desemprego massivo, baixa de remunerações, aumento da emigração dos mais qualificados e o reforço do padrão de especialização em sectores de mão-de-obra intensiva e mal paga”, afirma, numa crítica que abrange tanto a substância da proposta como o próprio processo de concertação social.

A proposta de reforma laboral aprovada pelo Governo prevê que a duração dos contratos de trabalho tenha um máximo de três anos a termo certo e cinco anos a termo incerto e mantém o fim da proibição do ‘outsourcing’ após despedimentos. Mantém também a não reintegração do trabalhador em caso de despedimento ilícito independentemente da dimensão da empresa, embora neste último caso com uma indemnização majorada.

Para Paulo Gonçalves Marcos, o problema estrutural vai além da reforma em causa e passa pela desigualdade salarial entre Portugal e os congéneres europeus. “Faz algum sentido que os trabalhadores de sectores como banca, seguros, energia e telecomunicações, que trabalham nas grandes empresas que operam em Portugal, tenham salários de metade dos seus colegas que estão em França, Espanha ou Itália?”, questiona o presidente do SNQTB, defendendo legislação que promova salários mais elevados nas multinacionais e no sector público qualificado como condição para um efeito de arrastamento sobre os restantes salários da economia.

O responsável sindical questiona ainda a representatividade e legitimidade da Comissão Permanente de Concertação Social, considerando que o organismo, constituído no rescaldo do período pós-25 de Novembro de 1975, não tem capacidade para “pensar, antecipar e mobilizar a sociedade portuguesa para os desafios presentes e futuros acerca do mundo do trabalho e das empresas”.

“A Comissão Permanente de Concertação Social  não tem representatividade nem legitimidade constitucional. É uma fotografia de uma determinada composição social e económica, no rescaldo do 25.11 e da necessidade de integrar as forças relevantes em 1975. Nestas condições só por inocência, ou má-fé, é que alguém pode considerar que a chamada Comissão Permanente de Concertação Social lisboeta tem capacidade e representação para pensar, antecipar e mobilizar a sociedade portuguesa para os desafios presentes e futuros acerca do mundo do trabalho e das empresas”.

“Num contexto em que um governo parece obstinado em impor uma visão das relações laborais de cariz punitivo aos trabalhadores; empresários com qualificações inferiores às dos trabalhadores; empresas de pequena dimensão e sub-capitalizadas; e o facto de as multinacionais usufruírem de retornos acionistas superiores ao de geografias comparáveis à custa de uma compressão salarial lamentável, não podíamos esperar nenhum acordo sobre matérias verdadeiramente relevantes””, aponta.

Para a USI, é à Assembleia da República que estes temas devem ser remetidos. “Visto que a Concertação tem um déficit de representação e de qualificação, será à Assembleia da República que estes temas têm que ser remetidos”, defende Paulo Marcos.

A crítica da USI enquadra-se num contexto de rejeição mais ampla da proposta pelos parceiros sociais. A UGT, que também rejeitou o documento, considera que a versão aprovada em Conselho de Ministros é mais próxima do anteprojeto de julho de 2025 do que da versão mais evoluída que chegou a ser discutida em abril com a central sindical. A UGT aponta recuos em matérias como o banco de horas individual, a jornada contínua — que passa a depender de acordo do empregador — e os dias de férias adicionais, que foram eliminados e substituídos por dois dias de falta justificada mas não remunerada.

Em conferência de imprensa, a Ministra do Trabalho, Rosário Palma Ramalho, explicou que a proposta de lei de reforma laboral ontem aprovada em Conselho de Ministros teve como “ponto de partida” o anteprojeto inicial apresentado pelo Governo em 24 de julho de 2025, mas “introduz mais de 50 alterações” ao documento inicial e que resultam do processo negocial ao longo dos últimos nove meses.

Das mais 50 alterações, 12 das quais resultam de medidas propostas pela UGT, salientou a governante, sublinhando que a proposta de lei resulta da “reflexão do Governo ao longo do processo” e dos “contributos” feitos pelos parceiros sociais, academia e sociedade civil.

A proposta de lei dará entrada na Assembleia da República, onde será aberto um período de discussão pública de um mês para recolha de contributos de todas as organizações.

A CGTP tem convocada uma greve geral para 3 de junho.

Relacionado

SNQTB lança abaixo-assinado nacional em defesa das pensões dos bancários

SNQTB lança abaixo-assinado nacional em defesa das pensões dos bancários

Maria Teixeira Alves8 Mai
Em causa está o regime de conjugação entre as pensões previstas nas convenções coletivas de trabalho do setor bancário e as pensões atribuídas pela Segurança Social e pela Caixa Geral de Aposentações (CGA). O documento será entregue ao Governo, à Assembleia da República e à Presidência da República e pretende exigir a correção de “injustiças que continuam a penalizar financeiramente milhares de bancários reformados”.
SNQTB subscreve reinvindicações da União dos Sindicatos Independentes sobre revisão da lei laboral

SNQTB subscreve reinvindicações da União dos Sindicatos Independentes sobre revisão da lei laboral

Maria Teixeira Alves28 Abr
A USI pretende chamar a atenção para a ausência de representação do sindicalismo independente no Conselho Económico e Social (CES), situação que considera "desajustada face à realidade atual do mercado de trabalho e do panorama sindical em Portugal". Por outro lado, critica também o que entende ser uma "concertação da representação dos trabalhadores nas confederações sindicais tradicionais", defendendo uma maior abertura e pluralidade naquele órgão consultivo.