Filipe Alves

Que papel para os ‘private equity’ na banca portuguesa?

O conglomerado chinês Fosun, dono de 30% do BCP, foi obrigado a anunciar uma venda apressada de ativos para reduzir e refinanciar a sua dívida gigantesca.

Já aqui escrevi, nas últimas semanas, que a banca portuguesa poderá assistir a movimentos de consolidação no próximo ano, com destaque para a possível venda do Novobanco pelo Lone Star. O Caixabank e outros concorrentes, como o Santander, o Abanca ou o BCP estarão entre os potenciais interessados. Mas também os fundos de private equity poderão potenciar a concentração no sector bancário português, à semelhança do que tem sucedido em outros países europeus, numa altura em que diversos fatores tornam estes movimentos cada vez mais prováveis.

Fundos como o Fortitude Capital, liderado por António Esteves (ex-Goldman Sachs) ou o gigante Cerberus, que tem estado ativo no sector na Europa e conta com António Horta Osório como advisor, poderão entrar em cena para fomentar fusões e aquisições entre bancos portugueses. Foi inclusive noticiado, no final do ano passado, que o Fortitude tentou levantar capital junto de vários investidores para promover uma fusão entre o Novobanco e o Millennium bcp.

No caso concreto do Novobanco, um dos cenários que têm sido avançados passa por uma colocação em bolsa, deixando para uma segunda fase uma eventual fusão com um dos concorrentes. A forma como a Lone Star tem conduzido o processo – com o discreto sucessor de António Ramalho a avançar com uma estratégia de stand alone – parece apontar nesse sentido. Esta alternativa esbarra, porém, na dificuldade em concluir com sucesso a colocação em bolsa de um banco no atual contexto de incerteza nos mercados.

Outro cenário seria a própria Lone Star rever a sua estratégia em relação ao mercado português e optar por “escalar” para mais tarde “de-escalar”. Isto é, o Novobanco passar de presa a caçador, consolidando para depois ser também ele próprio vendido já com todas as sinergias incorporadas. Mas estará a Lone Star, que tem a seu cargo as pensões de milhares de norte-americanos, interessada em aumentar a sua exposição ao sector bancário português no atual ambiente macroeconómico, para mais quando a relação com o poder político e com o Fundo de Resolução não é propriamente a melhor?

O Novobanco não será, porém, o único grande banco português que poderá ter novos acionistas no próximo ano. O Millennium bcp, ele próprio um candidato a “consolidador” do sector, tem de lidar com o facto de o seu maior acionista, o conglomerado chinês Fosun (dono de 29,95%), estar a atravessar um momento complicado, tendo sido forçado a anunciar uma apressada venda de ativos para conseguir reduzir e refinanciar a dívida colossal que acumulou durante uma década de dinheiro barato.

Embora esta situação não prejudique o banco liderado por Miguel Maya do ponto de vista operacional, cria pressão sobre o valor das suas ações e impede-o de ter um papel mais ativo nos movimentos de consolidação na banca portuguesa. Juntam-se a isto as dificuldades na Polónia e o facto de, ao que tudo indica, a angolana Sonangol (que detém 19,5% do BCP) pretender focar-se noutros investimentos.

Na banca portuguesa, o tabuleiro está preparado e as peças estão alinhadas. Nos próximos meses veremos como vão jogar os diferentes intervenientes, tanto os privados como o Estado, que eventualmente também poderá ter uma palavra a dizer.

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