A reforma é vista como um direito adquirido, a confiança no sistema é fraca, a incerteza quanto ao futuro é grande, mas ignora-se o planeamento.
Estas são as principais conclusões do Barómetro Doutor Finanças dedicado à Preparação da Reforma, divulgado esta sexta-feira, 15, no âmbito do Dia Mundial da Família. O estudo foi realizado pelo Centro de Estudos Aplicados (CEA) da Universidade Católica Portuguesa, em colaboração com o Doutor Finanças.
Mais de metade dos inquiridos antecipa dificuldades financeiras no futuro, num contexto em que a incerteza (38%), o medo (26%) e a ansiedade (23%) se sobrepõem às perceções mais positivas associadas a esta fase da vida, como descanso (35%) ou liberdade (15%).
A perceção de risco é reforçada pela desconfiança no sistema público. Com efeito, cerca de 47% dos inquiridos não acreditam que a Segurança Social consiga garantir o pagamento de pensões no futuro, e 55% consideram que a pensão pública não será suficiente para manter o nível de vida.
Esta perceção é agravada pela iliteracia financeira, de que são exemplo os 33% dos inquiridos que admitem não saber quanto irão receber na reforma (65% nunca fizeram qualquer simulação da pensão) e os 73% que desconhecem quanto precisam poupar para manter o nível de vida após a reforma. Como consequência, 54% antecipa dificuldades financeiras na reforma, 32% acreditam que terão dificuldades em manter o nível de vida e 22% receiam não conseguir cobrir despesas essenciais. Não obstante, aproximadamente 31% admitem adiar o planeamento da reforma.
Poupam os portugueses para a reforma?
Uma fatia de 68% afirma poupar para a reforma, mas apenas 34% diz fazê-lo de forma regular, enquanto 25% poupam de forma irregular e 31% não poupam de todo.
A principal razão apontada, por mais de metade dos inquiridos, é a falta de rendimento, muito acima de fatores como falta de prioridade ou disciplina. As soluções mais utilizadas são os PPR e fundos, e os depósitos a prazo, o que evidencia uma preferência por produtos conservadores. Ainda assim, 26% dos portugueses não recorrem a qualquer instrumento de poupança.
Perante este cenário, mais de metade dos portugueses (52%) admite continuar a trabalhar após a idade da reforma, seja a tempo inteiro ou parcial, face à necessidade de complementar o rendimento.
As mulheres são o grupo mais vulnerável neste retrato, apresentando níveis mais elevados de medo e ansiedade face à reforma e maior incerteza quanto ao futuro.
Contrariando a perceção mais comum, são os mais jovens que revelam maior consciência e preocupação com a reforma. As faixas etárias entre os 25 e os 45 anos demonstram maior sensibilização para o tema e maior predisposição para poupar, sinalizando uma mudança geracional na abordagem ao futuro financeiro.
A saúde surge como a principal preocupação associada a esta fase da vida (81%), seguida da dependência de familiares (30%) e da perda de rendimento (29%). Os custos da habitação (23%) também assumem alguma relevância, indicando que as despesas fixas continuam a ser uma fonte de pressão.
Ainda assim, a reforma continua a ser idealizada como um período positivo, sobretudo associado ao lazer, com destaque para viajar (58%) e passar mais tempo com família e amigos.
O estudo revela ainda uma forte abertura ao aconselhamento financeiro, com 81% dos portugueses a admitirem que utilizariam este tipo de apoio para planear a reforma. Paralelamente, existe um consenso praticamente generalizado sobre a necessidade de reforçar a educação financeira nas escolas, com 92% a defenderem uma maior preparação das novas gerações para decisões financeiras de longo prazo.