Nada soa a mais ou a menos. Tudo se encontra no seu lugar. Se fosse música podia ‘loopar’ até à infinitude sem nunca aborrecer. Atmosferas vagarosas, feitas de espelhos, traços, centenas de traços, de reflexos e desvios. Para percorrer sem pressa. Como quando ouvimos uma música encantatória. A exposição “Reflexos, Enclaves, Desvios”, de José Pedro Croft, no MAC/CCB – com curadoria de Luiz Camillo Osorio – tem a magia do jogo entre superfícies planas e formas tridimensionais, do jogo de espelhos que reflete corpos e amplia escalas, suspendendo o tempo.
Aquele que é um dos nomes maiores da arte contemporânea portuguesa volta a realizar uma grande exposição no CCB, cerca de 25 anos depois da antológica que o museu lhe dedicou. Envolveu “muita preparação, muito trabalho”, diz o artista por ocasião da visita de imprensa. O gozo que lhe deu está à vista, mas não deixa de exercitar a generosidade. “Há um trabalho que nós fazemos no ateliê, mas depois ter o curador com quem conversamos e ter o anfitrião, que, neste caso é o MAC/CCB, com uma fantástica equipa, todos a trabalharmos para que seja uma boa exposição”, faz com que este seja “um momento muito feliz.” E logo realça que “não é para satisfazer o artista, é para que seja uma boa exposição.”
Cinco salas, 170 obras, marcadas por uma relação constante com o espaço e o (nosso) corpo. “Estudei pintura, arquitetura, escultura com o João Cutileiro. Comecei a fazer obras figurativas, depois fui justapondo e sobrepondo elementos de pedra. Depois passei para o vidro, o mobiliário, o barro… e ao mesmo tempo desenhava. E era sempre eu, havia uma verdade lá dentro, mas era mais dispersa”, explica José Pedro Croft. Esta exposição, revela, “corresponde a um outro momento, que é o momento que permitiu fechar essa porta. E sempre que se fecha uma porta abre-se outra.” E disfere de imediato, sorridente, antecipando a pergunta. “Uma porta que eu não sei o que é [agora] porque ainda não a abri.”
Esta exposição é, acima de tudo, “um trabalho de grande depuração.” Não se pense, contudo, que existe uma ânsia ou demanda de perfeição. “Não há qualquer busca de perfeição.” Pausa. “Num mundo em que estamos sempre à procura de coisas novas, da última coisa que nunca ninguém viu, acho que temos de voltar ao básico, a centrar-nos nas questões básicas. E cada vez que fazemos um gesto e mudamos uma cor, mudamos uma linha, mudamos uma escala, criamos uma desorganização e uma perturbação de tal maneira grande que é preciso refazer tudo para perceber que aquilo está tudo bem.” Aqui chegados, as leituras de filósofos intrometem-se. “O que é verdadeiramente difícil é pôr as coisas em equilíbrio com um pequeno gesto.”
Reflexos, Enclaves, Desvios, de José Pedro Croft, com curadoria de Curadoria Luiz Camillo Osorio
30 abril – 13 setembro | MAC-CCB, Lisboa





