Há talvez quatro anos que o líder sírio, bashar al-Assad não saía do seu território em visita oficial – a última foi ao Irão, em fevereiro de 2019 – mas o seu encontro com o presidente Vladimir em Moscovo, esta quarta-feira, foi proveitoso: reconheceu os territórios da Ucrânia que Moscovo reivindicou como russos e na volta aceitou uma proposta russa para estabelecer novas bases militares e aumentar o número de tropas no seu país.
Quando a Rússia interveio na guerra na Síria em 2015, quatro anos após o início dos protestos no país que desencadearam a guerra civil, ajudou definitivamente a cimentar a posição de al-Assad, garantindo a sobrevivência do líder sírio apesar das exigências ocidentais e da Liga Árabe de que se afastasse. A ‘dívida de gratidão’ ficou.
“Achamos que expandir a presença russa na Síria é bom”, disse al-Assad à RIA, agência noticiosa russa, em entrevista publicada esta quinta-feira. E acrescentou que o aumento da presença russa na Síria não tem necessariamente de ser temporária.
Mas nem tudo terá corrido pelo melhor: al-Assad disse também que não se encontraria com o presidente turco, Recep Erdogan, até que o que chamou “ocupação ilegal” de terras sírias por Ancara terminasse. Cai assim por terra um dos pontos mais importantes da agenda do presidente turco, que queria, alavancado num crescente entendimento com o regime de al-Assad, resolver de vez o problema dos grupos curdos que atuam em território sírio.
Ancara tinha fortes expectativas que do encontro entre al-Assad e Putin surgisse um entendimento nesse sentido – mas as notícias vindas de Moscovo vão no sentido contrário: antes do diálogo, há que deixar o terreno e resistir à tentação de entrar na Síria – como aconteceu repetidamente no passado – para perseguir os curdos. Só assim “seria possível haver uma reunião entre mim e Erdogan”, disse.
Os ministros da Defesa da Síria e da Turquia reuniram no final do ano passado para as negociações de mais alto nível entre os dois vizinhos em muito tempo. Na altura, Ancara observou essa reunião como uma preparação para um encontro de nível presidencial, mas al-Assad, para já, não está disponível.
De qualquer modo, a imprensa russa afirma que Moscovo sediará negociações entre Rússia, Irão, Síria e Turquia, num encontro que tem como foco o processo de normalização das relações entre Ancara e Damasco
Por outro lado, o Irão também não dá mostras de pretender abandonar as suas posições na Síria, apesar de estas serem repetidamente atacadas pelo exército de Israel: a fronteira entre os territórios sírio e libanês é demasiado apetecível.
Do encontro entre os dois presidentes em Moscovo, e ainda segundo as agências russas, resultou que serão em breve assinados uma série de acordos económicos, com os quais o regime sírio pretende ancorar algum desenvolvimento a uma situação caótica, resultante do estado de guerra que assola o país desde 2011.