Carlos Lourenço, Senior Vice President, CGI

Portugal e o futuro dos serviços de TI: da eficiência à criação de valor estratégico

Portugal tem condições para reforçar o seu posicionamento como prestador global de serviços de TI de elevado valor. A tecnologia não elimina o valor humano: desloca-o para funções de maior análise e responsabilidade.

A economia global atravessa uma transformação estrutural sem precedentes. A aceleração da Inteligência Artificial, a instabilidade geopolítica e a crescente exigência de eficiência, confiança e resiliência estão a redefinir a forma como empresas e países competem. Neste contexto, o papel dos prestadores globais de serviços de Tecnologias de Informação (TI) está a ser profundamente reavaliado — e Portugal enfrenta uma oportunidade estratégica que exige visão, ambição e capacidade de execução.

Na última década, o país afirmou-se como um destino relevante para serviços globais de TI, apoiado em talento qualificado, integração europeia e estabilidade institucional. Esse posicionamento permitiu atrair investimento, integrar cadeias de valor internacionais e apoiar a modernização de setores críticos da economia nacional. Hoje, porém, o contexto é distinto. A competitividade já não se mede apenas pelo custo ou pela escala, mas pela capacidade de gerar valor, especialização e impacto mensurável no negócio dos clientes, sejam multinacionais ou organizações focadas no mercado nacional.

O modelo assente na eficiência operacional e no nearshore foi determinante para o crescimento do setor, mas revela limitações claras. Os operadores económicos procuram parceiros que compreendam o seu contexto, dominem setores específicos e assumam responsabilidade pelos resultados. Esta exigência é transversal e aplica-se tanto a grandes organizações internacionais como a empresas nacionais e à Administração Pública, igualmente pressionadas a transformar-se com eficiência e resiliência.

O talento continua a ser o principal ativo de Portugal, mas também uma das suas maiores vulnerabilidades. A competição global intensifica-se, a pressão salarial aumenta e a escassez de perfis sénior condiciona tanto os projetos orientados para exportação como a resposta ao mercado interno. Apesar de uma base sólida de formação técnica, persiste um desequilíbrio entre talento júnior e especialistas em áreas como dados, cibersegurança e IA aplicada. Sem uma aposta consistente na requalificação contínua e na progressão de carreira, o país arrisca fragilizar a sua competitividade externa e a modernização interna.

O enquadramento regulatório europeu para a Inteligência Artificial acrescenta complexidade, mas também diferenciação. Num contexto em que ética, privacidade e conformidade ganham centralidade, cresce a procura por parceiros capazes de implementar tecnologia de forma responsável, sobretudo em setores regulados.

Num cenário internacional marcado por incerteza, a previsibilidade institucional tornou-se um fator crítico. A estabilidade política, a integração europeia e a maturidade crescente do ecossistema tecnológico reforçam a confiança dos clientes e sustentam investimentos estruturantes em áreas como energia, mobilidade, saúde e setor público.

Portugal tem condições para reforçar o seu posicionamento como prestador global de serviços de TI de elevado valor. Esse percurso exigirá escolhas estratégicas e investimento contínuo em talento e tecnologia. A tecnologia não elimina o valor humano: desloca-o para funções de maior análise e responsabilidade. O sucesso dependerá da capacidade coletiva para subir, de forma sustentada, na cadeia de valor — no mercado internacional e no mercado nacional. O potencial é real. O desafio é exigente. E o momento de agir é agora.

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