Carlos Manso, CEO Infralobo, E.M., Economista e Membro da Direção Nacional da Ordem dos Economistas

Portugal e a água

É crucial fortalecer a responsabilidade dos municípios, promovendo a profissionalização e a adaptação de instrumentos legais para incorporar considerações na gestão da água.

A gestão da água em Portugal é um desafio urgente, caracterizada pela disparidade regional e pelas projeções preocupantes sobre a disponibilidade futura desse recurso essencial.

O país enfrenta uma perspetiva de redução da pluviosidade até 2040, aumentando o risco de seca e de escassez, especialmente no sul. A consciência desse problema parece ser maior nas regiões afetadas, porque no norte e centro, a abundância relativa de água minimiza a perceção da gravidade da situação dificultando a existência de um sentimento nacional que exerça a pressão política necessária à resolução deste desafio.

A discrepância regional cria desafios significativos para uma gestão equitativa e eficiente dos recursos hídricos nacionais. Nas regiões a sul, a escassez de água é uma preocupação constante, exigindo uma melhor gestão para garantir o consumo humano e agrícola sem comprometer o ambiente. No norte e centro, onde a água é mais abundante, os desafios focam-se na qualidade e na gestão sustentável dos recursos, dado o risco de poluição.

Uma abordagem holística e integrada é essencial para enfrentar esses desafios, incluindo políticas que abordem tanto a disponibilidade quanto a qualidade da água em todo o país. Isso requer uma maior solidariedade entre regiões e um reforço do modelo de governance, com uma cooperação mais estreita entre os diferentes atores envolvidos na gestão da água.

É crucial fortalecer a responsabilidade dos municípios, promovendo a profissionalização e a adaptação de instrumentos legais para incorporar considerações na gestão da água. Assim, num futuro próximo o acesso à água sem restrições no Algarve pode ser uma vantagem competitiva relativamente aos seus concorrentes e com a adaptação pelos Municípios dos RJUE, estes também podem e devem ser instrumentos na gestão eficiente da água.

A aposta em pesquisa e inovação é urgente, em tecnologias para monitorização em tempo real do consumo, previsão de pluviosidade e soluções de reutilização de águas residuais e dessalinização particulares para os grandes consumidores, como forma de aliviar a pressão do lado da procura.

A gestão da água em Portugal enfrenta desafios complexos, mas oferece oportunidades para promover a sustentabilidade e o desenvolvimento resiliente. Com uma abordagem colaborativa e solidária entre regiões, é possível garantir um futuro sustentável para o país como um todo. Pensem nisto.

Nota: Este artigo de opinião apenas reflete a opinião pessoal e técnica do Autor e não a opinião ou posição das entidades com quem colabora ou trabalha.

A coluna quinzenal Pensar a Economia é uma parceria JE | Ordem dos Economistas.

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