José Miguel Marques Mendes, Engenheiro, Gestor de Empresas

Porquê fechar os olhos aos resultados (obscenos) dos bancos?

Se estes lucros resultassem das operações normais de crédito, tudo estaria perfeito, porque seria o enquadramento normal da banca. Mas não é isso que está a ocorrer.

Os bancos são precisos na economia mundial e Portugal não é exceção, pelo que não devem ser vistos como um mal menor. Não existe economia sem atividade bancária e é uma atividade fulcral para a sobrevivência das empresas e particulares, estando inteiramente ligada ao desenvolvimento da sociedade e da vida humana.

Os bancos são empresas e, como tal, devem gerar dinheiro, devem dar lucro. Dentro dos bancos há pessoas, iguais às que estão noutras empresas, que precisam de trabalhar e ver o seu trabalho remunerado com dignidade.

Todos nós somos clientes desses bancos, dessas empresas, somos servidos por essas pessoas e queremos ser tratados com qualidade e, neste caso, qualidade é quase sempre confiança. Como clientes de bancos queremos ver o nosso dinheiro seguro e rentabilizado e, por isso, é decisivo que o banco seja uma empresa credível, fiável, sustentável e longe de debilidades financeiras, como sucede em muitas empresas não financeiras.

Quando algo falha na relação entre um banco e o cliente, normalmente, quase sempre, desafortunadamente, tem a ver com uma perda material. Como um banco é uma empresa financeira, quando a relação com o cliente é de perda, esta perda é dinheiro.
Por isso devemos desejar que os bancos sejam empresas financeiramente saudáveis.

Estes bancos, e porque são em empresas, têm acionistas que recebem os seus lucros em forma de dividendos. E está certo porque são os acionistas que investiram na criação do banco e na sua manutenção, por vezes com novas injeções de capital. Portanto, nada de novo, ou seja, tudo igual a qualquer outra empresa que esteja no mercado.

Mas nem tudo é assim de pacífico quando olhamos as coisas como elas são.
Sem querer ser uma voz de protesto, confesso a minha indignidade perante a obscenidade de lucros sem qualquer paralelo com a riqueza da economia ou das pessoas. Apenas isso, enormes lucros dos bancos sem justificação de mercado.

Há pelo menos três bancos com lucros recorde em 2023. Um deles viu o seu lucro crescer em mais de 50% face a 2022. Este recorde de lucros em 2023, entre todos os bancos a operar em Portugal, pode ascender a cinco mil milhões de euros. Um recorde de riqueza ímpar, num período em que o clima social nacional é uma tormenta por causa do empobrecimento das pessoas trabalhadoras. Agoniante.

Ora bem, indo um pouco mais fundo.

Numa tomada de consciência, lembrar que, durante vários anos, a margem financeira dos bancos foi afetada por taxas de juro marginalmente positivas e que, na sua génese, a atividade bancária resulta de receber depósitos e conceder crédito, aplicando um spread entre taxas passivas e ativas. E se estes lucros resultassem das operações normais de crédito, tudo estaria perfeito, porque seria o enquadramento normal da banca. Seria o equilíbrio comercial entre a banca e as necessidades de investimento das empresas e particulares, não só saudável como recomendável.

Mas não é isso que está a ocorrer.

Por decisão unilateral do BCE e de todos os bancos centrais nacionais como o Banco de Portugal, foi imposta uma subida das “taxas de juro” a um nível tal que as empresas e pessoas, endividadas junto da banca, tiveram e ainda têm, de pagar brutais quantias em juros. Este aumento de juros a pagar é um dinheiro que vai direto para os lucros do banco. Direto. O que muitíssimo mais se paga de dinheiro pelo crédito vai direitinho para os acionistas dos bancos.

A minha indignação é sobre este cristalino e obsceno fluxo de dinheiro que, numa linguagem um pouco crua, parece “arrancar dinheiro aos clientes para o entregar diretamente aos acionistas dos bancos”. As relações entre as empresas e clientes não devem ter esta agoniante tensão!

Por fim, o inacreditável.

Por que não afetar parte destes lucros excessivos, em virtude de margens financeiras elevadíssimas entre as taxas que pagam e as que recebem, a fundos de sustentabilidade de todo o sistema bancário, ou à sustentabilidade da segurança social, ou à irradicação da fome em Portugal, ou outra iniciativa que nos fizesse sentir a sensatez do Homem?

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