Sofia Vale, Economista, Professora do ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa

PE, ou o otimismo

Um país com problemas de fundo, cresce, mas não progride. Sem prejuízo de responder às exigências da conjuntura, se há folga para fazer políticas, estas deveriam procurar soluções de longo prazo. 

No Programa de Estabilidade (PE) apresentado em abril o Governo projeta finanças públicas sólidas, com convergência da dívida para 92% do PIB em 2027 e um excedente orçamental de 0,1%. Em paralelo, promete um crescimento económico médio de 1,8%, para os próximos quatro anos, assente no investimento e nas exportações, enquanto anuncia políticas sociais e o aumento do rendimento das famílias através da redução de impostos. Em suma, tudo irá pelo melhor no melhor dos mundos.

O modelo proposto é coerente – uma economia que investe tende a crescer e assim melhorar o equilíbrio das suas Finanças Públicas pelo encaixe de mais receita. O investimento surgirá impulsionado pelo PRR e as exportações resultarão sobretudo do turismo. O aumento da receita pública proveniente destas atividades (e facilitado pela inflação) tornará possível financiar mais despesa ou reduzir os montantes cobrados em IRS.

Apesar da contestação habitual, o modelo foi validado pelo Conselho das Finanças Públicas, que antecipou mesmo a estimativa do PE, prevendo um excedente orçamental já em 2024. Mas fê-lo, deixando um aviso – as exportações dependerão da incerteza quanto à evolução da envolvente externa, marcada por guerra, inflação e taxas de juro altas e, obstáculos ao financiamento nacional do investimento comprometerão a execução do PRR.

Uma análise do outro lado do espelho revela o paradoxo deste modelo – o crescimento atual da economia portuguesa não se materializa em melhores condições de vida para a sua população. A isso mesmo foram sensíveis as últimas previsões da Comissão Europeia quando, ao rever em alta a taxa de crescimento português de 1 para 2,4%, em linha com as do FMI (cuja projeção é 2,6%), advertiu para uma fraca procura interna, dada a contração do poder de compra das famílias e a subida das taxas de juro.

O aumento dos salários previsto no PE – 8% em 2023 ­– supera a inflação, estimada em 5,1%, e aponta por isso para um aumento do poder de compra da ordem dos 3%, mas é manifestamente insuficiente para compensar as perdas sentidas desde 2021.

As políticas sociais propostas seguem o modelo assistencialista dos últimos tempos, enquanto esquecem problemas graves como a crise da habitação que, conjugada com salários muito inferiores à média europeia, é um sério obstáculo à permanência de mão de obra jovem qualificada no país. E a precariedade no mercado de trabalho não está resolvida – segundo o Eurostat, Portugal regista já a maior percentagem de jovens empregados com contratos temporários que não participam no ensino formal (40%).

Um país com problemas de fundo, cresce, mas não progride. Sem prejuízo de responder às exigências da conjuntura – e o programa é de estabilidade – se há folga para fazer políticas, estas deveriam procurar soluções de longo prazo.  Como remataria Cândido, é preciso cultivar o nosso jardim.

Relacionado

Irão: Choque energético “ainda não terminou” e IA aumenta procura por energia, diz FMI

Irão: Choque energético “ainda não terminou” e IA aumenta procura por energia, diz FMI

"O estreito de Ormuz continua, em grande parte, fechado, as reservas estratégicas de petróleo e gás terão de ser repostas, a IA aumenta a procura de energia e o inverno aproxima-se no hemisfério norte", afirmou Kristalina Georgieva, na terça-feira 1 de setembro, no final da reunião dos ministros das Finanças e governadores dos bancos centrais do G20 em Asheville, no estado norte-americano da Carolina do Norte.