Naiole Cohen, Economista, Professora na Universidade Agostinho Neto, Luanda

Palavra de ordem “dinheiro”

O sistema financeiro mundial lucrou com as Áfricas porque cobrou caro pela sua vulnerabilidade. Agora, as Áfricas começam a levantar-se ao descobrir que a sua maior força pode estar no dinheiro que já possui, mas que ainda não aprendeu a organizar colectivamente.

Durante décadas, as Áfricas foram ensinadas a esperar. Esperar pela ajuda, pelo empréstimo, pela aprovação das agências de rating, pela boa vontade dos doadores, pela próxima missão técnica e por um sistema financeiro mundial que prometia desenvolvimento, mas entregou sempre dependência. A palavra de ordem sempre foi “dinheiro”, mas raramente o dinheiro circulou em condições justas para as Áfricas.

O sistema financeiro mundial não nasceu neutro; com arquitectura criada nos pós-2ª guerra mundial em 1945, em Bretton Woods, foi desenhada para estabilizar o mundo e apoiar a Europa e, consequentemente às Áfricas ficaram fora da equação e classificadas como de “alto risco”.

As Áfricas entram nesse sistema tarde, fragmentadas, recém-independentes, endividadas e muitas vezes empurradas para modelos que não escolheram e, como consequência, a relação desigual permanece, mesmo com os PIB a crescerem positivamente, pagam mais caro e, apesar do potencial, são classificadas como risco e, quando querem investir no futuro, são lembradas da dívida do passado.

As narrativas de risco tornaram-se uma espécie de imposto invisível sobre elas, a tal ponto que mesmo um projecto de energia, estrada, agricultura ou indústria pode ser financiado mais caro nas Áfricas do que noutras regiões, não porque seja pior, mas porque o olhar sobre África continua contaminado por preconceitos históricos, instabilidade real, fragilidade institucional e uma indústria global que lucra com a classificação do risco das Áfricas.

O Consenso de Abidjan – 2026 e a Nova Arquitectura Financeira Africana para o Desenvolvimento (NAFAD) representa mais do que um novo acrónimo, uma tentativa de ruptura política e psicológica, de reforma estrutural para que as Áfricas possam financiar o seu desenvolvimento sem tanta dependência externa, volatilidade, juros altos e condicionalidades, que muitas vezes reduzem a soberania das políticas públicas.

O ponto central é simples: mobilizar capital de 400 mil milhões de dólares. As Áfricas têm dinheiro, mas o problema é que grande parte desse capital está desorganizado, fragmentado ou investido fora do próprio continente. A nova arquitectura financeira propõe exactamente mobilizar esse capital. Estamos num momento histórico, como tantos no planeta, e este está abaixo do radar das narrativas mundiais.

O teste será transformar discurso em capital real. A possível entrada da Refinaria Dangote no mercado de capitais africano é simbólica, mas mostra que activos das Áfricas podem ter escala global e que as bolsas das Áfricas podem deixar de ser periféricas. Se África conseguir financiar os seus próprios gigantes, deixará de pedir licença para crescer.

O sistema financeiro mundial lucrou com as Áfricas porque cobrou caro pela sua vulnerabilidade. Agora, as Áfricas começam a levantar-se ao descobrir que a sua maior força pode estar no dinheiro que já possui, mas que ainda não aprendeu a organizar colectivamente. A nova palavra de ordem continua a ser “dinheiro”. Mas, desta vez, dinheiro com soberania.

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