Arrancou o ano e com ele os protestos, cada vez mais rotineiros, em São Paulo e no Rio de Janeiro. O motivo lembra o que levou às primeiras manifestações em junho de 2013, altura em que as prefeituras aplicaram o costumeiro reajuste na tarifa do bilhete de autocarro.
Os tais 20 centavos em causa, pouco mais de 6 cêntimos de euro, rapidamente deixaram de ser “apenas 20 centavos”. Era uma nação inteira a gritar por jus-tiça, a exigir honestidade e igualdade. Os brasileiros sairam à rua em nome do Brasil do futuro. E o movimento foi tão bonito que comoveu o mundo.
Este reajuste, aliado a um momento de profunda indignação em relação aos gastos exorbitantes para a construção de estádios para o Mundial, foi o rastilho que levou a que, nas redes sociais, surgissem vários grupos de protesto, à semelhança do movimento “Que se lixe a troika”, que encheu as ruas de Portugal em setembro de 2012.
Os movimentos tomaram conta das ruas das principais capitais brasileiras e as manifestações tornaram-se diárias. Aos poucos, as reinvidicações foram crescendo e o aumento da tarifa do autocarro era o menor dos problemas. Em cima da mesa estava a indignação generalizada em relação à corrupção, as dúvidas sobre a importância de receber um Mundial de Futebol no Brasil, a negligência da saúde, educação, segurança, etc.
O movimento reivindicatório foi crescendo até ao dia em que uma onda de manifestações simultâneas em São Paulo, Rio de Janeiro, Vitória, Curitiba, Porto Alegre e Brasília deixaram todos os governantes à beira de um ataque de nervos. Nem mesmo Dilma escapou ao perigo. O Palácio do Planalto, gabinete presidencial do Brasil, esteve em risco de ser invadido.
O ambiente era tenso e, enfim, as prefeituras não tiveram solução se não voltar atrás e reduzir os valores das tarifas. Mas, como o próprio movimento pregava, “não era só pelos 20 centavos”. E outras reinvindicações ainda tinham de ser atendidas.
Porém, a partir deste momento emblemático, as manifestações passaram a ser marcadas sobretudo pelo vandalismo. Inúmeros estabelecimentos comerciais eram apedrejados e grafitados de forma indiscriminada. Os Black Blocks, como ficaram conhecidos os manifestantes encapuzados e armados com pedras e paus, passaram a ser o centro das atenções dos protestos, sobrepondo-se aos valores que estavam a ser debatidos na praça pública.
Foi aí que muitas pessoas optaram pelo afastamento do movimento. Este, que tinha juntado universitários, médicos, empresários, classes altas e baixas sob um mesmo ideal, começava a perder força. As manifestações não deixaram de ser rotineiras, mas passaram a ter outros objetivos. Desconexas umas das outras, cada uma olhando para o seu próprio umbigo. Deste modo, a febre agregadora de junho de 2013 desvanesceu.
Nem mesmo a tão criticada Copa da FIFA, as eleições que dividiram o país e os escândalos hediondos da Petrobras foram suficientes para reacender a chama do brasileiro reivindicador. E assim, as manifestações que, mais do nunca, eram necessárias, que, mais do nunca, podiam mudar o rumo do país, não aconteceram.
Agora, mal o ano começa (e quase que pela calada da noite), as principais prefeituras do Brasil aplicam um reajuste nos primeiros dias de 2015. E não estamos a falar dos “tais 20 centavos”. Ora vejam a jogada de mestre: para compensar um ano e meio de atraso no reajuste, a Prefeitura de São Paulo, por exemplo, aplicou um aumento de 16,6%, ou seja, 50 centavos.
Dezoito meses após o inverno das manifestações no Brasil, uma coisa é certa: nada mudou. E, além dos 20 centavos, outros 30 foram enfiados goela abaixo.
Juliana Pereira Martins
Jornalista