OCDE defende agravamento fiscal para casas subaproveitadas e mais investimento na habitação

Reconhecendo o problema crescente no acesso à habitação em Portugal, a OCDE aponta várias das falhas do mercado no país e sugere medidas: impostos mais focados na propriedade, em vez das transações, e que penalizem imóveis devolutos ou usados como segunda habitação nas zonas com maior procura, além de maior preocupação com a eficiência energética e estímulos ao investimento.

OCDE defende agravamento fiscal para casas subaproveitadas e mais investimento na habitação
habitacao

Simplificar licenciamentos, reformar os impostos de propriedade, estimular o investimento e, acima de tudo, construir mais e melhores casas: estas são as principais recomendações da OCDE para o mercado imobiliário português, face ao falhanço da oferta em acompanhar o aumento da procura. O stock habitacional no país até é considerável e dos maiores do bloco em função do número de habitantes, mas a acessibilidade tem sido um problema cada vez mais evidente.

O relatório publicado esta terça-feira pela OCDE, o ‘Economic Survey – Portugal 2026’, dedica um capítulo inteiro à questão da habitação em Portugal, onde aponta uma série de falhas e ineficiências que têm contribuído para agravar o problema no acesso ao mercado. Os licenciamentos devem ser mais céleres, o sistema fiscal urge reformas, a habitação social tem de crescer e a qualidade dos imóveis é frequentemente insatisfatória, sobretudo no que diz respeito à sua eficiência energética.

A organização fala de “desafios estruturais no mercado imobiliário português” que, juntamente com uma retoma da procura, têm “minado a acessibilidade”, sobretudo junto dos jovens. Isto é espelhado pelo ritmo de crescimento dos preços, que, desde 2013, “ultrapassou a maioria dos países da zona euro e da OCDE”, uma dinâmica aliada a um fraco investimento, incentivos desajustados, um mercado de arrendamento limitado e pouco apoio a “pessoas que não consigam alojamento a preços de mercado”.

No detalhe, a análise aponta o dedo a várias situações que têm agravado o problema, mas sugere também reformas. A vertente fiscal é das mais visadas, sendo defendida uma mudança de fundo no modelo de taxação: em vez de privilegiar as transações, o que cria barreiras de mercado, a OCDE defende uma maior importância do IMI, ou seja, de impostos sobre a propriedade, o que também ajudaria a equilibrar a receita deste imposto com a evolução recente dos preços.

A juntar a isto, a organização sugere que seja aumentado o imposto no caso de imóveis desocupados, sejam devolutos, sejam segundas habitações, em zonas de elevada procura. Por outro lado, a isenção sobre mais-valias em residências principais “contribui para elevados ganhos extraordinários com o aumento dos preços das casas e agrava a desigualdade intergeracional”, pelo que deve ser colocado um limite a esta medida.

Muitas casas, mas desadequadas

Estas alterações contribuirão também para abordar outro dos problemas do mercado em Portugal, a falta de investimento. Aponta o relatório que o número de novas casas construídas por mil habitantes caiu de 2,44 em 2011 para 1,88 em 2022, o que espelha a depressão em que caiu o sector da construção após a crise financeira global, isto apesar de o país até ter dos maiores stocks de habitação em função da sua população da OCDE.

Em sentido contrário, o parque habitacional público é dos mais pequenos do bloco, representando apenas 1,06% do total em 2022, enquanto a percentagem de imóveis considerados em subutilização é a mais elevada, quer por serem segundas habitações (19%), quer por estarem sem condições de habitabilidade (12%).

Nesta mesma linha, uma das recomendações passa por “realizar um inventário das propriedades públicas que possam ser utilizadas para habitação social”, uma medida que vem sendo prometida por inúmeros partidos e forças políticas, mas que ainda não foi alcançada.

Finalmente, a organização aponta o dedo à elevada percentagem de portugueses que vivem em pobreza energética, um fenómeno que afeta não só os segmentos com menores rendimentos, mas a classe média também, sendo o nosso país superado apenas pela Grécia. No que respeita à capacidade de manter a casa quente no inverno, apenas em Espanha a situação é mais complicada do que em Portugal, ao passo que só na Turquia existia uma maior fatia dos imóveis com infiltrações, humidade excessiva ou bolor.

Relacionado

OCDE corta previsão de crescimento português para 1,8% este ano

OCDE corta previsão de crescimento português para 1,8% este ano

João Barros3 Jun
Organização cortou a expectativa de crescimento global este ano para 2,8% e a portuguesa para 1,8%, ou seja, menos 0,4 pontos percentuais do que em dezembro, mas avisa que, caso as perturbações no Médio Oriente se prolonguem até ao próximo ano, os efeitos negativos na economia e mercados financeiros serão consideravelmente mais relevantes.