A situação a que temos assistido no Serviço Nacional de Saúde (SNS), com o encerramento de serviços devido à falta de médicos, não é uma catástrofe natural ou uma qualquer inevitabilidade a que não possamos fugir. E ao contrário do que o Governo tem procurado fazer crer, o facto de ser um “problema crónico” só aumenta a responsabilidade de quem nos governa há mais de seis anos.
A situação a que temos assistido deve-se essencialmente a dois problemas. Por um lado, à falta de médicos. Por outro, à má gestão dos recursos humanos por parte dos hospitais, que, perante essa escassez de médicos, permitem que marquem férias sem ter em conta as necessidades dos serviços. Utilizo a expressão má gestão porque é realmente disso que se trata.
Em qualquer organização que seja bem gerida, a marcação de férias deve ser feita sempre que possível de comum acordo entre o empregador e o trabalhador. E em situação alguma as férias e as folgas podem pôr em causa a continuidade de um serviço. Isto é válido para qualquer organização, seja ela um serviço público, uma fábrica, um supermercado ou uma redação de um jornal. Quanto mais um hospital que lida com questões de vida ou morte!
Permitir que tal aconteça num hospital é demonstrativo de fraca liderança e má gestão. Será esta uma posição radical? Não, pois não existem outras palavras para descrever uma coisa destas. E o apuramento de responsabilidades deve ir até ao topo da hierarquia, desde os gestores hospitalares até à ministra da Saúde. Se a senhora ministra não serve para garantir que os cuidados de saúde funcionam e estão disponíveis para os cidadãos, então para que serve? Para anunciar a criação de comissões que ficarão encarregues de fazer aquilo que seria expectável que a senhora ministra decidisse e implementasse?
A triste verdade é que, infelizmente, os portugueses estão tão adormecidos que já aceitam estas situações aberrantes como sendo normais. Ainda somos um povo que se contenta com pouco e fica feliz com migalhas.
O Estado português, financiado pelos impostos dos seus cidadãos, gasta milhares de milhões de euros no Serviço Nacional de Saúde, para depois termos urgências fechadas porque as escalas não estão asseguradas, pessoas a morrer enquanto aguardam por uma cirurgia e doentes que ficam um ano (ou mais) à espera de uma consulta, rezando para que, chegada a data, a mesma não seja adiada. E o que faz o povo português? Os que não têm alternativa conformam-se e tentam sobreviver. Já os que têm meios para tal vão para o privado, onde sabem que poderão encontrar os mesmos médicos – os tais que no SNS andam sobrecarregados – a trabalhar em part time. Se não fosse trágico seria quase engraçado.
Dito isto, a responsabilidade não é apenas de quem nos governa. A Ordem dos Médicos tem uma grande responsabilidade no estado a que a Saúde chegou em Portugal, atuando frequentemente como uma força de bloqueio que procura impedir a abertura de novos cursos de medicina, como se viu nas dificuldades que foram levantadas à licenciatura da Universidade Católica. Os problemas do SNS começam precisamente por aqui, nesta mentalidade corporativista, como bem notou o primeiro-ministro António Costa na abertura do curso da Católica, em setembro do ano passado.
A situação está há muitos anos à vista de todos. Não é normal que um jovem tenha de ter uma média superior a 19 para ingressar num curso de medicina. É inadmissível que, para proteger os privilégios de uma classe, se limite o número de profissionais, com o argumento falacioso de que de outra forma não é possível manter o rigor científico. O Serviço Nacional de Saúde deveria existir para servir o povo português e não os boys dos partidos, as corporações profissionais e os diversos lobbies que gravitam na sua órbita.