Miguel Baumgartner, Gestor e Comentador de Política Internacional

O medo como motor da história europeia

Politicamente, o Livro Branco é um marco. Coloca a defesa no centro da agenda europeia, onde tradicionalmente imperaram temas económicos e institucionais. Representa também um momento raro de lucidez estratégica.

“A Europa não pode continuar a viver na ilusão de que a paz é garantida por inércia ou por terceiros.”

No filme Dr. Strangelove, Stanley Kubrick conduz-nos pela insanidade de uma cadeia de comando descontrolada, onde a ameaça nuclear paira como resultado da descoordenação entre aliados e da ilusão de controlo sobre o caos. A sátira serve, hoje mais do que nunca, como aviso sobre a urgência de estruturas de defesa coesas, preparadas e politicamente maduras. E é precisamente com esse pano de fundo que devemos ler o Livro Branco sobre a Defesa Europeia – Prontidão 2030, apresentado pelo Comissário Andrius Kubilius, responsável pela Defesa e pelo Espaço. Não se trata de um exercício académico ou de um documento para gavetas institucionais: trata-se de um apelo político, estratégico e quase existencial.

A apresentação do Livro Branco ocorre num momento em que a segurança do continente europeu deixou, definitivamente, de ser uma abstração teórica. A guerra em larga escala regressou ao coração da Europa com a invasão da Ucrânia pela Federação Russa, e a retórica imperial de Moscovo não dá sinais de abrandamento. Ao mesmo tempo, multiplicam-se os incidentes híbridos – sabotagens, ciberataques, campanhas de desinformação – dentro das próprias fronteiras da União Europeia, colocando à prova a resiliência das nossas democracias e a solidez dos nossos sistemas políticos. A isto soma-se a crescente imprevisibilidade dos Estados Unidos, tradicional pilar da segurança europeia no seio da NATO, que atravessam uma fase de polarização interna e volatilidade estratégica, roçando, em certos momentos, a “loucura” geopolítica.

É neste contexto de instabilidade e incerteza que surge o Livro Branco sobre a Defesa Europeia – não como um mero documento institucional, mas como um roteiro ambicioso para acelerar a transição de uma União Europeia centrada quase exclusivamente no mercado único e na livre circulação, para uma Europa também capaz de se afirmar como potência de defesa, unida militarmente, com capacidade real de dissuasão e resposta. A ideia de uma União de Defesa Europeia, rejeitada nos anos 1950 – em 1954, nomeadamente pelo parlamento francês, ainda marcado pelas feridas da Segunda Guerra Mundial – parece agora não só menos utópica, mas claramente necessária.

Uma chamada à autonomia estratégica europeia

O documento tem, desde logo, o mérito de abandonar a linguagem dúbia dos tratados e entrar em território claro: a Europa precisa de estar militarmente preparada para um conflito de alta intensidade. Precisa de aumentar a sua prontidão, reforçar a base industrial e tecnológica de defesa, melhorar a interoperabilidade entre forças armadas nacionais e reduzir dependências estratégicas, sobretudo face aos EUA e à Ásia. Esta é, sem rodeios, uma chamada à autonomia estratégica europeia.

As propostas do Livro Branco são ambiciosas e necessárias. A criação de um Comissário europeu de Defesa já foi um dos pontos centrais, conferindo à Comissão Europeia um papel de coordenação política e orçamental até aqui inexistente neste domínio. A ideia de estabelecer uma Força de Reação Rápida Europeia – capaz de ser mobilizada em 10 dias – visa resolver um dos maiores défices da política externa comum: a incapacidade de agir com rapidez.

Além disso, o reforço do investimento em capacidades críticas (munições, defesas antiaéreas, vigilância, cibersegurança) é uma resposta direta à realidade do terreno ucraniano e aos avisos dos parceiros bálticos. A proposta de que cada Estado-membro aumente a despesa em defesa para 2% do PIB (em linha com a NATO) é um reconhecimento claro de que a paz custa dinheiro – e de que a Europa, durante demasiado tempo, delegou esse custo nos EUA.

Mas se o Livro Branco acerta no diagnóstico e na direção, já a sua execução enfrentará dificuldades consideráveis. A primeira é política. A defesa continua a ser um bastião da soberania nacional. Vários Estados-membros (sobretudo na Europa de Leste e no Norte) continuam a ver a NATO como o único garante real da segurança continental. A Alemanha, apesar da sua recente Zeitenwende, vai levar algum tempo para assumir plenamente a liderança que o seu peso económico exige. E países como a Hungria ou a Eslováquia tentam travar, no Conselho Europeu, qualquer passo decisivo.

A segunda grande dificuldade prende-se com a questão orçamental. O Livro Branco propõe a criação de um fundo europeu de defesa de larga escala, destinado a financiar o reforço das capacidades militares da União e a apoiar a base industrial e tecnológica da defesa europeia. No entanto, o documento não especifica, para já, de que forma será financiado esse fundo, deixando em aberto uma das questões mais sensíveis do processo.

Entre as hipóteses em discussão, destaca-se a possibilidade da emissão de euro-obrigações especificamente destinadas à defesa – os chamados “eurobonds da defesa”. Trata-se de uma solução com solidez económica e sentido estratégico, já aplicada noutros contextos, como o plano de recuperação pós-Covid. Contudo, é uma proposta politicamente delicada, sobretudo entre os Estados-membros mais relutantes quanto à partilha de riscos financeiros, receando que este mecanismo conduza a uma forma de mutualização da dívida europeia.

A este obstáculo acresce a dificuldade de aumentar a despesa pública num momento em que muitos países enfrentam fortes pressões orçamentais e o regresso das regras do Pacto de Estabilidade e Crescimento. Ainda que a Comissão Europeia tenha sinalizado alguma margem de flexibilidade para despesas relacionadas com segurança e defesa, a realidade é que, para muitos governos, justificar novos investimentos militares face às exigências de consolidação orçamental será uma tarefa politicamente exigente e, em alguns casos, impopular.

Por fim, há o desafio industrial. A Europa perdeu grande parte da sua capacidade de produção em defesa durante décadas de desinvestimento. Hoje, não consegue produzir munições em quantidade suficiente para abastecer a Ucrânia, muito menos para se preparar para um conflito prolongado. A reconstituição dessa base industrial exigirá tempo, capital e coordenação entre Estados com interesses económicos divergentes.

Transformar a Europa num verdadeiro ator geopolítico

Politicamente, o Livro Branco é um marco. Coloca a defesa no centro da agenda europeia, onde tradicionalmente imperaram temas económicos e institucionais. Representa também um momento raro de lucidez estratégica: a Europa não pode continuar a viver na ilusão de que a paz é garantida por inércia ou por terceiros.

Ao mesmo tempo, é revelador que este avanço ocorra mais por medo do que por visão. A ideia de uma Defesa Europeia não é nova. Jacques Delors, Romano Prodi e tantos outros a defenderam, sempre sem sucesso. Só agora, perante a ameaça concreta russa e o risco deste segundo mandato de Donald Trump, é que os Estados-membros começaram a reconhecer que precisam de cuidar da sua própria segurança.

O risco político, porém, é que esta vontade de agir se dilua numa rede de compromissos vagos e de vetos nacionais. O Parlamento Europeu tem sido vocal a favor de mais integração, mas continua a ter um papel limitado em matérias de defesa. E a Comissão, apesar da proposta de um Comissário específico, dependerá sempre da vontade dos Estados para avançar.

Se for bem executado, o Livro Branco pode transformar a União Europeia num verdadeiro ator geopolítico. Isso significaria mais capacidade de dissuasão, maior relevância internacional e menos dependência de alianças externas. Reforçaria também a coesão interna da UE, oferecendo um projeto comum com impacto direto na segurança dos cidadãos.

Se for mal implementado, será mais uma oportunidade perdida. E, nesse caso, o risco é duplo: não apenas a UE continuará vulnerável, como ficará descredibilizada aos olhos dos seus próprios parceiros e rivais. A NATO, por sua vez, continuará a carregar sozinha o peso da defesa europeia, numa altura em que os EUA podem virar-se para o Indo-Pacífico ou fechar-se ainda mais em si próprios.

Kubrick ensinou-nos que a ausência de coordenação e a confiança cega em automatismos pode levar ao desastre. O Livro Branco sobre a Defesa Europeia é, nesse sentido, um plano para restaurar o controlo estratégico sobre o nosso destino coletivo. Cabe agora aos líderes europeus a coragem de o concretizar. Porque, ao contrário de Dr. Strangelove, este não é um guião satírico. É uma emergência real. E o tempo que resta para agir é curto.

Relacionado

Reservas de gás da União Europeia estão no nível mais baixo em 15 anos

Reservas de gás da União Europeia estão no nível mais baixo em 15 anos

Ruben Pires3 Set
De acordo com a publicação BiGo Finance o nível de reservas de gás que a União Europeia detém nesta altura deve-se a um erro de cálculo. O bloco europeu vinha adiando as compras de gás na expetativa de que o conflito no Médio Oriente, que se iniciou em fevereiro entre Estados Unidos, Israel, e Irão, tivesse um desfecho rápido, permitindo que o gás natural vindo do Qatar voltasse a passar pelo Estreito de Ormuz a um preço mais baixo. Contudo o cenário de momento não se concretizou.