O luto por animais é real?

Este país reconheceu juridicamente o estatuto dos animais como membros da família, o que substancia o suporte ao luto pelos animais.

O luto por animais é real?
Silvia Vasconcelos

Recentemente, em Itália fez-se história: é o primeiro país a aprovar uma licença remunerada (até 3 dias) para que os detentores de animais os possam cuidar em caso de doença- o que é revelador do avanço civilizacional que se vive por lá, onde o bem-estar físico e emocional dos animais é, não só regulamentado, como respeitado e praticado. Este país reconheceu juridicamente o estatuto dos animais como membros da família, o que substancia o suporte ao luto pelos animais. Por cá, a nossa legislação já contempla como crime a negligência de um animal, mas não aponta como é que essa “ofensa penal” se materializa quando um animal adoece e o seu tutor está impedido por razões laborais de prestar cuidados ao animal. Aquilo que deve configurar como um dever cívico (e humanitário) depara-se, na prática, com o impedimento legal de prestar apoio a um animal doente. A consequência, inevitavelmente, é a do sofrimento pela dor ou pela eventual perda do animal, com impacto – real! – na saúde emocional e psicológica do tutor, até porque o apego entre pessoas e animais está mais do que documentado e comprovado (há mesmo escalas reconhecidas cientificamente que o avaliam).

O ser humano pode formar laços emocionais fortes com os seus animais de estimação, tornando-os não só objetos de cuidados como de segurança afetiva e emocional para a pessoa que com eles convive. Os vínculos de apego interespécie são inequivocamente semelhantes aos que se constroem entre seres humanos, pelo que o luto pelos animais de outra espécie é igualmente similar ao que vivencia entre pares específicos.

Isto é ainda mais evidente nos centros urbanos das sociedades dos nossos dias que detêm, dentro das suas casas, um número crescente de animais de estimação, sobretudo cães e gatos. E o propósito da mera companhia de entretenimento está ultrapassado. Hoje, os animais assumem um papel diferenciado na sociedade ao integrar o núcleo familiar, numa troca emocional que beneficia ambas as espécies, inclusive no que respeita à saúde: os animais usufruem cada vez mais de cuidados de alimentação e cuidados médicos, os seres humanos beneficiam fisiológica e mentalmente do contacto regular com os animais. Os animais podem ser grandes companheiros nos momentos de tristeza e sofrimento e ajudam a atenuar a solidão e o isolamento social. Portanto, o apego aos animais não é assim tão “misterioso” ou inexplicável… Foi aliás já definido por Bowly (na sua Teoria de Apego) e por outros autores (como o etólogo k. Lorenz). E consecutivo a este apego, está o sofrimento pela morte dos nossos animais: o luto, que se expressa em respostas físicas, emocionais, comportamentais perante a perda e que, requer tempo para que nos organizemos psicologicamente para continuarmos sem a companhia e presença assídua dos nossos animais. Sofremos, humanos, ansiedade por separação, como bem explicou Bowlky, onde se evidenciam fases características do luto: a negação, a revolta, o adiamento da dor (como uma esperança subliminar do regresso do animal), e depois a tristeza imensa e profunda ante a realidade da perda. A aceitação vem depois, e ao ritmo temporal, e singular, de cada um e aqui o foco são as boas memórias, já sem a carga dilacerante da dor da perda.

Retomando a questão que intitula este artigo: sim, o luto pelos animais é real, trazido inevitavelmente pelos vínculos de apego entre pessoas e animais.

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