A recente polémica da Bienal de Veneza, um dos festivais de arte contemporânea mais importantes do mundo, veio agravar um profundo mal-estar por parte de artistas e da sociedade civil que recusam ficar em silêncio perante as sistemáticas violações de direitos humanos.
O genocídio em Gaza levou a uma forte tomada de posição por parte do júri internacional da Bienal, que apelou à exclusão da representação de Israel, recusando premiar líderes acusados de crimes contra a humanidade.
É importante relembrar que a Bienal não é composta por artistas independentes, mas vive de financiamento e as escolhas de cada governo representado. Para além das denúncias contra Israel, a direção da Bienal aprovou a inclusão da Rússia no certame, facto que espoletou a fúria das instituições europeias.
Mais, já teve como consequência uma advertência por parte da Comissão Europeia de que “os eventos culturais financiados com o dinheiro dos contribuintes europeus devem salvaguardar os valores democráticos.”
A Fundação da Bienal e o governo italiano afirmam recusar qualquer forma de censura e defendem a neutralidade das instituições culturais. O impasse levou a que os cinco membros do júri se demitissem em bloco, a poucos dias da inauguração.
Consequentemente, a organização decidiu substituir o júri pelos prémios do público, que vota no melhores pavilhões e artistas, transformando assim um ato de crítica especializada numa escolha de popularidade. Eis a ruína do Leão de Ouro.
Daí a pertinência da pergunta: pode e deve a arte ser um espaço neutro? Pode um evento como a Bienal afirmar que está acima da política quando é financiado por dinheiro institucional? Ou será esse apenas um argumento conveniente para que nada mude?
Não deixa de ser hipócrita esta neutralidade seletiva, quando sabemos que a Rússia já tinha sido excluída em 2022 após a invasão da Ucrânia. Mesmo no desporto, atletas russos já foram banidos de competições internacionais, como os Jogos Olímpicos ou a UEFA. Por que razão deve a arte merecer um tratamento diferente?
A verdade é que a Bienal de Veneza está a ruir a olhos vistos. Importa relembrar as palavras memoráveis dos membros do júri demissionário: “Como membros do júri, temos também uma responsabilidade para com o papel histórico da Bienal como plataforma que liga a arte às urgências do seu tempo.”
A questão fundamental já não é se a arte deve ou não tomar partido, mas se as instituições que a acolhem têm coragem para fazer o mesmo, ou se preferem continuar a fechar os olhos ao mundo que nos rodeia. A neutralidade tem sempre um preço e quem o paga raramente são as instituições.