Jorge Silva Carvalho, Analista de Estratégia, Segurança e Defesa

O erro de cálculo de Trump e a resiliência do bloco europeu

Sem o subsídio das compras europeias, o motor de I&D americano enfraquece, abrindo espaço para que a UE desenvolva tecnologia concorrente. Esta erosão enfraquece o dólar como ferramenta geopolítica.

O senso comum político fixou-se na ideia de que as críticas de Donald Trump à NATO foram um mero exercício de isolacionismo ou uma reclamação sobre as quotas de 2% do PIB.

No entanto, uma análise profunda revela que a estratégia de Trump continha um erro de cálculo fundamental sobre a natureza da União Europeia — erro que a Estratégia de Segurança Nacional (NSS) de 2025 confirma ao assumir a UE como um obstáculo.

Se é verdade que a exigência de um maior esforço europeu assenta num princípio justo de partilha de encargos, recusando que os EUA suportem sozinhos o custo da segurança comum, o que começou como pressão para que a Europa financiasse o complexo industrial‑militar americano acabou por acelerar o nascimento de um rival estratégico.

A exigência de Washington visava expandir o mercado para as suas exportações. Na visão da Casa Branca, cada euro investido por um aliado deveria alimentar o ciclo de Investigação e Desenvolvimento (I&D) que garante a supremacia tecnológica americana.

Em 2023, só através do programa Foreign Military Sales, as encomendas externas atingiram 81 mil milhões de dólares, um salto de 55%, com contratos vultuosos para a Polónia e Alemanha. Somando as vendas comerciais diretas, o valor ultrapassou os 150 mil milhões de dólares.

Contudo, Trump subestimou a UE como entidade coordenadora. Em vez de comprarem apenas “no catálogo” americano, os Estados-membros, via PESCO e Fundo Europeu de Defesa, começaram a ganhar massa crítica para reduzir a dependência externa.

A UE aproveitou a pressão para, ainda que com fricções, priorizar a produção própria e criar a escala necessária para a sua indústria competir globalmente. A Europa não está apenas a gastar mais; está a investir para se tornar autónoma. É aqui que a NSS de 2025 revela a sua face: o ataque direto à UE é uma tentativa de correção de rota perante um bloco industrial e regulatório rival.

Para Trump, uma Europa de nações individuais é um conjunto de clientes dependentes; uma UE coordenada é um concorrente que ameaça a dominância do dólar e a hegemonia tecnológica. Se a UE consolidar esta autonomia, os EUA enfrentam uma erosão no coração do seu modelo de inovação.

A defesa é a coluna vertebral do Silicon Valley: em 2023, cerca de 41% do financiamento federal de I&D (86 mil milhões de dólares) proveio do Pentágono. Tecnologias como o GPS e a Internet (ARPANET) ilustram como a inovação militar e civil são, nos EUA, indissociáveis.

Ao perder a exclusividade sobre o mercado europeu, os EUA arriscam perder o financiamento externo que sustenta esse ecossistema. Sem o subsídio das compras europeias, o motor de I&D americano enfraquece, abrindo espaço para que a UE desenvolva tecnologia concorrente. Esta erosão, aliada à menor dependência da infraestrutura financeira de Washington, enfraquece o dólar como ferramenta geopolítica.

A rivalidade estende-se ao domínio digital, onde a UE utiliza o mercado comum como arma regulatória, desafiando as Big Tech com regras de concorrência e privacidade que condicionam os seus modelos de negócio. Ao impor limites ao uso de dados, a UE retira às empresas americanas a liberdade de moldar sozinhas o futuro tecnológico.

À medida que entramos em 2026, este braço de ferro atingirá o seu ponto crítico. O novo ano será o teste definitivo à resiliência da estratégia europeia: ou a UE consolida as suas cadeias de valor e soberania tecnológica, ou cede à pressão de uma Washington que já não esconde a sua hostilidade ao bloco.

A tática de Trump parece ter sido o catalisador que a Europa precisava para deixar de ser um protetorado.

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