Nuno Morna, ex-líder da IL Madeira, desvincula-se do partido

"Faço-o sem ressentimento, porque o ressentimento é uma forma de dependência, e eu quero justamente o contrário. Faço-o sem necessidade de lavar roupa suja em praça pública, o que sempre evitei, embora matéria-prima não faltasse, porque há espetáculos degradantes que devem ficar reservados aos que ainda sentem prazer em viver neles. Faço-o com a serenidade de quem sabe o que deu, o que fez e o que suportou. Levo comigo o trabalho, a entrega, a memória e a consciência tranquila", disse Nuno Morna ao confirmar a sua desvinculação da Iniciativa Liberal (IL), pela qual foi deputado na Assembleia Legislativa da Madeira.

Nuno Morna, ex-líder da IL Madeira, desvincula-se do partido
Homem de Gouveia/Lusa

O ex-líder da Iniciativa Liberal Madeira, Nuno Morna, explicou esta sexta-feira os motivos que o levam a se desvincular do partido.

“Cheguei à minha paragem e saio aqui. Fui um dos fundadores da Iniciativa Liberal, e convém dizê-lo assim, sem modéstias de sacristia e sem falsa humildade, porque há momentos em que a verdade precisa de ser posta em cima da mesa para ver se alguém se lembra do que realmente aconteceu”, começa por dizer Nuno Morna, numa carta datada desta sexta-feira 10 de abril.

Nuno Morna referiu que se afasta porque “a náusea também é uma forma de lucidez”. O antigo líder partidário acrescenta que “não saio por exaustão sentimental, não saio por capricho adolescente, não saio por despeito, que é o refúgio favorito dos medíocres quando já não sabem explicar a saída dos outros. Saio porque comecei a olhar para dentro e a ver uma coisa que reconhecia cada vez menos: uma espécie de caricatura de partido liberal, habitado por algumas figuras que confundem projecto político com escadote pessoal e imaginam a lealdade como submissão, a crítica como traição e a frontalidade como inconveniência. Ora eu nunca tive vocação para criado, nem para figurante, nem para cúmplice silencioso de gente convencida de que o simples facto de ter chegado tarde lhes dá o direito de reescrever a história e distribuir certificados de pureza aos que lá estavam antes de haver palco, luzes e plateia”.

Em seguida o antigo deputado na Assembleia Legislativa da Madeira disse que a partir deste momento considera-se “formal e politicamente desvinculado” da Iniciativa Liberal.

“Faço-o sem ressentimento, porque o ressentimento é uma forma de dependência, e eu quero justamente o contrário. Faço-o sem necessidade de lavar roupa suja em praça pública, o que sempre evitei, embora matéria-prima não faltasse, porque há espetáculos degradantes que devem ficar reservados aos que ainda sentem prazer em viver neles. Faço-o com a serenidade de quem sabe o que deu, o que fez e o que suportou. Levo comigo o trabalho, a entrega, a memória e a consciência tranquila”, salienta.

“Deixo para trás a encenação, a pequenez, a impostura e esta forma cada vez mais cansada de pseudo-liberalismo de província, em que alguns confundem liberdade com licença para a mediocridade e liderança com o simples exercício da sobranceria. Não abandono as ideias que me trouxeram até aqui. Abandono apenas uma estrutura que deixou de estar à altura delas. Continuarei a pensar, a escrever, a intervir e a discordar, fora de partidos ou dentro, se e quando o entender, porque a minha fidelidade nunca foi aos aparelhos, foi sempre à liberdade. E essa, ao contrário de certas criaturas que hoje por lá se pavoneiam, não depende de convite, nem de pose, nem de bênção, nem do olhar aprovador dos novos proprietários da coisa, esses administradores do vazio que chegaram tarde, chegaram mal e, como quase sempre sucede, chegaram a tempo de estragar”, afirma.

O agora desvinculado liberal disse que “entrou de coração cheio, sim, que é expressão perigosa num tempo em que toda a gente entra em tudo por cálculo, por currículo, por fotografia e por conveniência, mas entrei mesmo de coração cheio porque finalmente existia em Portugal um partido que parecia disposto a tratar a liberdade como coisa séria e não como bibelot de prateleira, para ser mostrado aos domingos e escondido à segunda-feira”, acrescentou.

Na carta o antigo líder liberal madeirense referiu que “sempre soube” que um partido liberal era “indispensável” à democracia portuguesa, precisamente porque Portugal tem esta inclinação quase “patológica para o favor, para a dependência, para a infantilização do cidadão, para o culto da mão que distribui e da cabeça que se baixa”, acrescentando que o país “sempre teve demasiados administradores do medo e poucos defensores” da liberdade. “E eu, ao contrário de tantos profissionais da prudência e do arranjinho, acreditei que valia a pena ajudar a construir uma casa onde se pudesse falar de responsabilidade individual, de autonomia, de mérito e de decência, sem que logo aparecesse um seminarista a fazer cara de escândalo”, salientou.

“Na Madeira, como em quase tudo o que importa, a coisa começou sem fanfarras, sem cortejos, sem os habituais pavões da política regional, esses galos de capoeira que só aparecem quando o milho já está no chão e a fotografia garantida. Com muito poucos fundei o Núcleo da Madeira. Com muito poucos, e digo poucos no sentido quase bíblico da palavra, porque éramos mesmo muito poucos, levámos às costas a estrutura regional, fingindo que éramos muitos quando não éramos quase ninguém. E este fingimento não tinha nada de impostura. Era sobrevivência. Era a dignidade do esforço. Era o pobre a engomar a única camisa para parecer apresentável ao mundo”, descreve.

“Enquanto outros dormiam descansados no conforto da sua inutilidade, nós escrevíamos, organizávamos, respondíamos, improvisávamos, tapávamos buracos, inventávamos presença onde só havia ausência, e dávamos à estrutura a aparência de uma máquina quando, na verdade, aquilo era meia dúzia de pessoas a tentar impedir que o edifício caísse ao primeiro sopro. Fui o principal responsável pela criação e gestão de conteúdos nas redes sociais, o que é uma actividade que muita gente confunde com pôr frases sobre fundos bonitos, como se a comunicação política fosse uma extensão do álbum de férias. Não é. Dei tempo e energia, deixando de fazer outras coisas que me dão imenso prazer: escrever sem obrigação, ler quando me apetece, estar com os meus com qualidade, como consigo fazer agora. Era preciso pensar, afinar, manter a coerência, dar identidade, construir linguagem, manter presença, aguentar o ridículo, falhar e emendar, responder ao disparate e, ao mesmo tempo, preservar um mínimo de elevação num ecossistema político que tantas vezes parece um cruzamento entre um recreio mal frequentado e uma confraria de egos com problemas de alfabetização moral”, refere na carta em que anuncia a desvinculação do partido.

Nuno Morna continua dizendo que depois, como era inevitável, chegou o momento em que a coisa “passou a ter valor aos olhos daqueles que só respeitam o que já vem embalado, validado e, de preferência, com lugar à mesa garantido”.

O antigo líder liberal salientou que depois de o partido se afirmar como força política regional, com a eleição do primeiro deputado, o “produto” passou a ser apetecível. “E digo “produto” com a repugnância devida, porque nada revela melhor a degradação da política do que vê-la tratada como mercadoria por gente que nunca produziu rigorosamente nada, a não ser opinião sobre o esforço dos outros”, disse.

“Foi então que começaram a aparecer os retardatários do mérito, os especialistas da hora tardia, os devotos do êxito alheio, gente que nunca ajudou em nada, nem quando lhes foi pedido, nem quando fazia falta, nem quando a estrutura andava a cair aos bocados e precisava de braços, de tempo, de lealdade e de coragem. Não deram nada. Nem trabalho, nem disponibilidade, nem solidariedade, nem sequer o incómodo de aparecer quando era preciso. Há sempre estes personagens. A política atrai-os como a luz atrai insetos. Gente sem passado de combate, sem biografia de esforço, sem prova dada, mas cheia daquela segurança oleosa dos medíocres ambiciosos, que entram tarde e já entram a medir cortinados”, referiu.

Nuno Morna salientou que a sua ideia da política “sempre foi outra” e, talvez por isso, tenha acabado aqui, onde estou.

“Tenho, para mim, que a política é um misto de ideias, frontalidade e lealdade. Não é marketing existencial, não é uma coleção de poses e modelitos, não é um concurso de pequenos príncipes em busca de corte”, afirmou.

“Ideias, porque sem ideias a política é apenas administração de vaidades e distribuição de conveniências. Frontalidade, porque sempre preferi um inimigo declarado a um aliado viscoso. Lealdade, porque um projeto sem lealdade transforma-se depressa numa feira de uso mútuo, onde cada um mede o outro pela utilidade imediata e todos acabam por falar de princípios com a mesma sinceridade com que um vigarista fala de honestidade num jantar de beneficência”, acrescentou.

O antigo membro da IL referiu que ” problema é que, com o tempo, foi percebendo que estas três coisas, que, para si, são o mínimo olímpico da vida política, “começaram a rarear” até quase desaparecerem. “E quando digo “rarear”, não estou a usar uma figura de estilo. Estou a ser delicado quando podia ser muito mais duro. O que vi foi a substituição progressiva da convicção pela pose, da seriedade pela intriga miúda, da construção pela apropriação, da lealdade pelo cálculo, do liberalismo por uma espécie de encenação feita de frases prontas, ambições pequenas e manobras de corredor com verniz moderno”, disse.

“Não me identifico, por isso, com esta demanda pseudo-liberal. E chamo-lhe pseudo-liberal porque o nome certo, às vezes, é o único ato de higiene que resta. Liberalismo não é esta mascarada de conveniência, esta versão para consumo interno da liberdade, esta habilidade provinciana de usar palavras grandes para esconder comportamentos pequenos. Liberalismo não é um crachá para exibicionistas políticos, nem uma etiqueta para quem quer parecer moderno sem jamais ter corrido o risco de dizer uma verdade inconveniente. Liberalismo é exigência moral, responsabilidade, coragem, independência de espírito, recusa de servidões, desprezo pelo amiguismo e pelo carreirismo”, descreveu.

“O que fui vendo, pelo contrário, foi uma estrutura em que, demasiadas vezes, se fala de liberdade com a boca e se pratica a pequenez da seita com os gestos, onde se prega autonomia, mas se cultivam dependências, onde se invoca pensamento plural enquanto se premeia a obediência às circunstâncias e se tolera uma cultura de corte disfarçada de organização”, afirmou o antigo líder partidário.

Para Nuno Morna “havia e há” demasiada gente interessada em parecer liberal “sem suportar as consequências humanas do liberalismo, que são o confronto, a responsabilidade pessoal, a clareza e a ausência de rebanho. Muita pose, pouca espinha. Muito discurso, pouca estatura. Muita fome de lugar, pouca fome de verdade”.

O antigo deputado na Assembleia Legislativa da Madeira disse que chegou a sua paragem. “E digo paragem no sentido exato: um ponto em que se percebe que continuar seria trair-se. Não tenho paciência para dramatizações nem gosto dessa pornografia emocional da política, em que se sai a chorar para ver se o público aplaude a lágrima. Saio sem teatro, mas não em silêncio moral. Saio a dizer o que penso porque sempre foi assim que estive na política e porque o hábito de calar para agradar nunca me seduziu. Prefiro a solidão limpa à companhia contaminada. Prefiro estar fora de uma estrutura, a tempo de me conservar inteiro, do que ficar lá dentro, a apodrecer lentamente, em nome da disciplina, da conveniência ou da esperança pueril de que um dia os medíocres acordam melhores. Não acordam. Organizam-se”, sublinhou.

Nuno Morna acrescentou que “continuará a ser e a estar no mesmo sítio, sempre pela liberdade e pelo liberalismo”, sublinhando que “não mudou de ideias, mudei apenas de recinto”. Para o antigo líder partidário isso que devia ser fácil de perceber, “confunde muita gente porque há demasiados cérebros formatados” para acreditar que a verdade mora em siglas, que a consciência depende de cartão partidário e que a fidelidade à causa passa por engolir tudo o que a estrutura produz”, incluindo a decadência.

“Não passa. Nunca passou. Partidos são instrumentos, não igrejas. E quando o instrumento se estraga, quando desafina, quando começa a servir quem o usa em vez daquilo para que foi criado, a única atitude digna é pousá-lo. A liberdade não se esgota numa sede, num grupo de mensagens ou numa meia dúzia de criaturas convencidas de que representam mais do que realmente representam. O liberalismo não lhes pertence. Nunca lhes pertenceu”, afirma.

“Agradeço, do fundo do coração, a quem entendeu estes princípios e que comigo fez o caminho. Fico-lhes devedor para sempre. Fiquem cientes de que a vida tem muitas esquinas e que, quando se fecha uma porta, abre-se sempre uma janela. Não tenho dúvidas, meus amigos, de que em breve estaremos lado a lado a travar o bom combate”, acrescentou.

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