Redação

Nós Somos Charlie Hebdo

Todos nós somos atingidos neste ataque ao jornal francês Charlie Hebdo. É um ataque à cultura ocidental, àquilo a que chamamos civilização moderna, assente na liberdade e na democracia – um trajeto que fomos construindo durante séculos de lento progresso no sentido da tolerância, do respeito pela diferença, de integração multirracial e de abertura ao diálogo intercultural.

“Não se faz a guerra em nome de Deus”, disse o papa Francisco recentemente. Pois é, embora durante séculos, a maioria dos povos se tenha batido ferozmente em nome de Deus e tenha sido em nome Dele que algumas das piores enormidades desumanas se abateram sobre os povos, entre elas a nefasta Inquisição. Rivalidades religiosas derrubaram impérios, guerras intermináveis opuseram cristãos, muçulmanos, hindus, judeus. A violência entre católicos e protestantes alastrou alarvemente na Europa medieval (e ainda até há pouco tempo continuava na Irlanda) e sabemos bem o horror que se viveu nos Balcãs, aqui mesmo no coração da Europa há escassos 20 anos atrás, com fortíssimo
componente étnico-religioso.

Entre visões do mundo e crenças de todo o tipo, na verdade, a incompatibilidade lógica que separa conceções religiosas diferentes é irracional porque atropela o sentido da sua essência espiritual, que é o de dar um sentido moralizante à vida. Todas elas partilham desse valor. Daí ser irracional a sua incompatibilidade, só se compreendendo devido aos fundamentalismos e extremismos radicais desprovidos de sentido moral,
que persistem um pouco por todas as religiões, sendo os mais visíveis atualmente os fundamentalismos islâmicos.

O que aconteceu em Paris esta semana é fruto de radicalismos religiosos, mas é sobretudo fruto de extremismos políticos. Estes terroristas são acima de tudo gangs de extremistas para quem a religião é apenas uma das faces de um modelo de sociedade completamente oposto à  sociedade democrática e livre do ocidente. São defensores de regimes totalitários, emanados de conjunturas sociais profundamente  desequilibradas, malsãs, onde a destruição (Iraque) e o totalitarismo (Síria) perverteram o sentido de moralidade do Corão.

O que aconteceu em Paris esta semana pode vir a ter consequências terríveis – se sucumbirmos ao medo – ou se a França se fechar, ela própria, em extremismos de direita para se defender.

Gabriela Canavilhas
Pianista, deputada e ex-ministra da Cultura

Relacionado