Filipe Roque, Gestor

Mulheres de branco e negro

A Polónia tem, à semelhança do que Portugal tinha até ao referendo de 2007, uma das leis mais penalizadoras e restritivas sobre o aborto.

A Monika e a Kasia são ambas polacas.

A Monika cresceu em Cracóvia e todos os domingos vai à igreja com a família. Quando soube, às 12 semanas de gravidez, que o seu bebé sofria de síndrome de Down, absorveu o impacto emocional dos primeiros dias e não hesitou. Seguiu com a gravidez. Acredita profundamente que foi essa a vontade de Deus.

A Kasia cresceu em Varsóvia. Apesar de ser católica não pratica desde que foi viver para a capital, longe dos pais. Investiu na sua carreira e quando decidiu ser mãe, aos 38 anos, teve dificuldades em engravidar e fez um tratamento de fertilidade. Quando soube que um dos gémeos iria nascer com uma deficiência rara, perguntou ao médico que opções teria.

A Polónia tem, à semelhança do que Portugal tinha até ao referendo de 2007, uma das leis mais penalizadoras e restritivas sobre o aborto. A Kasia não pôde fazer um aborto, teve de se deslocar à República Checa ou à Alemanha para o efeito. Atualmente, o aborto só é permitido em caso de lesões graves do feto, quando a saúde da mãe está em risco ou se a gravidez for resultado de incesto ou violação.

Na segunda-feira, dia 3, as mulheres polacas saíram à rua em largas dezenas de milhares em várias cidades para protestar. Faltaram às aulas e ao trabalho, saíram à rua vestidas de negro. O apelo feito nas redes sociais, sob o nome #czarny protest, foi um sucesso. Ergueram placas com mensagens duras como: “O meu útero, a minha opinião”, “queremos médicos, não missionários”. A energia e a raiva de tanta mulher em protesto foi incrível!

Protestaram não contra a lei atual, mas contra a que está atualmente em discussão no Parlamento. Há duas semanas, os padres leram na missa uma carta enviada ao partido conservador católico no poder, a pedir para o diploma de 1993 ser revisto de forma a torná-lo ainda mais repressivo. Grupos ultraconservadores católicos, como o Ordos Iuris e a coligação Parem o Aborto, organizaram uma petição de 450.000 assinaturas. O líder do partido no poder, Lei e Justiça, declarou na televisão que, enquanto católico, ia seguir o apelo do clero e propor no Parlamento um novo diploma para proibir totalmente o aborto e criar penas severas para os médicos e as mulheres que o levarem a cabo.

Em reação, outros grupos de mulheres vestidas de branco saíram às ruas a defender a futura lei que pune o aborto. A Monika e a Kasia representam a divisão política e ideológica que a Polónia vive desde que o partido de direita conservador católico venceu as últimas eleições. Duas razões que levaram à sua vitória: o discurso comum do medo sobre hordas de imigrantes muçulmanos que iriam invadir a Polónia e o facto de ainda muitos milhões de polacos votarem no partido que for apoiado pelo padre da igreja que habitualmente frequentam.

Os imigrantes não invadiram a Polónia, mas vivem-se tempos polémicos. As mulheres falaram e, durante a semana que passou, vários sinais de recuo por parte dos políticos trazem a esperança de que a nova lei não chegue a ser aprovada. O comité de justiça e direitos humanos reviu o novo diploma e recomendou ao Parlamento a sua anulação, apanhando de surpresa o partido no poder. Um dos atuais ministros, referindo-se aos protestos, declarou: “Obrigou-nos a pensar e ensinou-nos humildade”. O “protesto negro” mudou a opinião pública. As sondagens sugerem que a esmagadora maioria não só está contra o diploma em aprovação, como apoiam uma maior liberalização da lei em vigor.

Esta quinta-feira, o Parlamento acabou por rejeitar a proposta: 352 deputados apoiaram a decisão, incluindo vários deputados do partido ultraconservador, e apenas 58 votaram a favor. Saberemos em breve se os polacos irão produzir um diploma “cinzento” ou um meio-termo que agrade simultaneamente à Monika e à Kasia, às “duas Polónias”. Se assim não for, teremos as ruas novamente tingidas de branco e negro.

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