Ministra do Ambiente mete ordem nas fileiras: “não está em curso qualquer fusão na energia”

Sem cartas na manga. Num exercício de transparência, e para garantir a tranquilidade das patentes entre os vários ramos da sua tutela, a ministra escreveu que não se encontra a preparar reestruturações. No cenário de acontecer algo, no futuro, tudo será feito em colaboração com as entidades, garantiu.

Ministra do Ambiente mete ordem nas fileiras: “não está em curso qualquer fusão na energia”
Maria de Graça Carvalho

A ministra do Ambiente e da Energia escreveu às suas entidades tuteladas a meter ordem nas fileiras. Na missiva, Maria da Graça Carvalho garantiu que não está atualmente a ser preparada nenhuma fusão entre entidades públicas do sector da energia.

“Não existe neste momento em curso qualquer fusão no sector da energia”, pode-se ler na missiva enviada no início de setembro.

Mais. A governante deu garantias de que, qualquer alteração de fundo, será sempre feita em articulação com as entidades: nada de cartas na manga.

“É entendimento do Governo que qualquer reestruturação/fusão que possa vir ocorrer no futuro neste sector terá obrigatoriamente de passar pela consulta e colaboração das próprias entidades envolvidas”, segundo a comunicação a que o JE teve acesso.

Maria da Graça Carvalho acrescentou uma informação que já é pública. “Está em curso a reestruturação da Secretaria-Geral do Ambiente e a criação duma nova estrutura para a gestão do Fundo Ambiental”.

A carta foi enviada para as cinco grandes entidades públicas do sector da energia: Direção-Geral de Energia e Geologia (DGEG), Laboratório Nacional de Energia e Geologia (LNEG), Entidade Nacional para o Setor Energético (ENSE), ADENE – Agência para a Energia e a Empresa de Desenvolvimento Mineiro (EDM).
Com esta missiva, a ministra quis passar uma mensagem de tranquilidade e, ao mesmo tempo, mostrar transparência na sua relação com as entidades tuteladas, depois de virem a público notícias que davam conta da criação de uma “super agência de energia”.
A comunicação foi enviada pela altura da saída de Jerónimo Cunha da liderança da DGEG, onde foi substituído por Paulo Carmona. A substituição foi justificada com a “necessidade de imprimir nova orientação à gestão dos serviços”.

No passado, o Governo PS chegou a ter um plano para realizar uma pequena fusão no sector da energia, entre a DGEG e a ENSE. Só mais tarde seria avaliado se valeria a pena englobar mais entidades, apurou o JE.

O plano passava também por criar um Instituto de Regime Especial, uma entidade pública, mas com possibilidade de pagar salários mais elevados do que paga a DGEG atualmente.

A ideia seria atrair mais talento para este organismo público, incluindo recém-licenciados cujo salário de entrada na DGEG (1.300 euros) fica abaixo do pago em média a um jovem no sector privado. Mesmo os salários mais elevados na DGEG não ultrapassam os 2.500 euros mensais, um valor muito abaixo do que é pago no privado a um profissional com vários anos de experiência. Assim, o Estado não consegue atrair quadros qualificados e com o conhecimento necessário para este organismo.

Outra grande questão são as cativações das Finanças. Regra geral, chegado a fevereiro, as Finanças já cativaram o orçamento anual da DGEG, o que dificulta e muito as operações da entidade.

E mexer no fundo de caixa para pagar despesas correntes e depois repor o dinheiro? Um grande risco. Quem o fizer será multado pelo Tribunal de Contas: nenhuma boa ação fica impune no Estado, com os dirigentes, mesmo que tenham boa vontade e queiram colocar a máquina a andar, a não arriscarem medidas destas, perante a penalização.

Ora, um Instituto de Regime Especial garantiria maior autonomia financeira e daria o poder de fogo necessário ao licenciamento, tão crucial para avançar com a transição energética.

Outro problemas são as requisições de serviços. Os especialistas destas entidades são requisitados por outras entidades do Estado. Com a possibilidade de auferirem um salário superior, é  óbvio que aceitam as requisições, mas a entidade de origem fica desfalcada de outro especialista, criando mais um problema.

A criação deste tipo de Instituto de Regime Especial para conseguir atrair mais quadros e ter independência financeira será algo que não foi descartado pelo novo Governo, apurou o JE. Mas qualquer alteração nas entidades, em modelo ainda a definir, com eventuais fusões, só terá lugar mais para a frente.

Até porque, fontes do sector alertam que é impossível juntar numa mesma entidade a gestão das reservas petrolíferas, como na ENSE, e a venda de serviços, como no LNEG, isto é, a atribuição de direitos e a formulação de políticas públicas não podem coexistir com a venda de serviços.

O ministério do Ambiente e da Energia está agora focado no conselho de ministros extraordinário de sexta-feira dedicado ao sector da energia, de onde deverão sair novidades. A tutela também está focada na proposta do Orçamento do Estado que será entregue pelo Governo no Parlamento no dia 10 de outubro, existindo ainda bastantes dúvidas se será aprovado e se o país pode vir a enfrentar eleições antecipadas.

No encontro de sexta-feira, será aprovado o Plano Nacional de Energia e Clima (PNEC), o roteiro que estipula as metas de descarbonição do país até 2030, a par da reestruturação do Fundo Ambiental, revelou a ministra do Ambiente esta semana nas jornadas parlamentares do PSD, segundo o “Eco”.

Relacionado

Teresa Ribera é “ótima notícia para Portugal” dizem ex-ministros que trabalharam com nova comissária

Teresa Ribera é “ótima notícia para Portugal” dizem ex-ministros que trabalharam com nova comissária

André Cabrita-Mendes19 Set
Ex-ministros do Ambiente portugueses que lidaram com Teresa Ribera quando estava na Moncloa consideram que a nova número 2 da Comissão Europeia conhece bem os problemas do sul da Europa. Um dos temas críticos na transição são as "fracas interligações do sul da Europa que impedem que a energia produzida” na Ibéria seja aproveitada mais a norte.
Reservas de gás da União Europeia estão no nível mais baixo em 15 anos

Reservas de gás da União Europeia estão no nível mais baixo em 15 anos

Ruben Pires3 Set
De acordo com a publicação BiGo Finance o nível de reservas de gás que a União Europeia detém nesta altura deve-se a um erro de cálculo. O bloco europeu vinha adiando as compras de gás na expetativa de que o conflito no Médio Oriente, que se iniciou em fevereiro entre Estados Unidos, Israel, e Irão, tivesse um desfecho rápido, permitindo que o gás natural vindo do Qatar voltasse a passar pelo Estreito de Ormuz a um preço mais baixo. Contudo o cenário de momento não se concretizou.