Em março, o fundador do Facebook, Mark Zuckerberg, adquiriu o imóvel mais caro alguma vez vendido em Miami: uma mansão em construção com quase 2.800 metros quadrados na ilha privada de Indian Creek, pela qual pagou 170 milhões de dólares (cerca de 147 milhões de euros).
O recorde, porém, pode não durar muito. Está à venda em Key Biscayne, por 237 milhões de dólares (cerca de 205 milhões de euros), a casa do corretor de valores mobiliários John Daveney — a mesma que serviu de cenário à mansão do traficante Frank López no filme Scarface (1983), de Brian De Palma, com Al Pacino. É nessa propriedade que a personagem Elvira, interpretada por Michelle Pfeiffer, surge pela primeira vez descendo num célebre elevador de vidro.
Valores desta grandeza estão, obviamente, fora do alcance da esmagadora maioria da população. Mas para a fatia mais rica do planeta, Miami tornou-se um dos destinos mais cobiçados para viver.
Além de Zuckerberg, a lista de milionários que se mudaram para Miami nos últimos anos inclui Jeff Bezos, fundador da Amazon; Larry Page e Sergey Brin, cofundadores da Google; e Ivanka Trump, filha do presidente Donald Trump, com o marido Jared Kushner.
Segundo E. B. Solomont, jornalista do Wall Street Journal especializado em imobiliário residencial, tem-se verificado uma forte migração de pessoas de rendimento elevado para a Flórida, atraídas pelas vantagens que a vida em Miami oferece.
Mayi De la Vega, fundadora da imobiliária de luxo One Sotheby’s International Realty, considera que o mercado de Miami entrou numa nova fase, marcada pelo aumento das vendas de casas acima dos 60 milhões de dólares (cerca de 51,9 milhões de euros). Segundo a corretora, em 2025 este segmento gerou mais de 517 milhões de dólares (cerca de 447,5 milhões de euros) em vendas, todas relativas a imóveis acima daquele valor.
A influência da pandemia
Com o seu clima, as suas praias e a facilidade de transporte aéreo, Miami é historicamente um destino atraente para pessoas com grandes fortunas, sobretudo da América Latina. “Mas foi durante a pandemia de covid-19 que os americanos perceberam que a Flórida estava aberta aos negócios”, explica E. B. Solomont. Durante a pandemia, a Flórida gerou polémica por ter sido um dos primeiros estados americanos a levantar as restrições de mobilidade para as pessoas em espaços públicos, eliminando a obrigatoriedade do uso de máscara e reabrindo escolas, bares e restaurantes.
Estas decisões valeram muitas críticas à Flórida. Mas também transformaram o estado, governado pelo republicano Ron DeSantis, num destino ideal para pessoas de rendimento elevado que viviam noutros locais, com medidas de saúde pública muito mais rígidas, como os estados de Nova Iorque, Califórnia e Illinois.
“A isto soma-se o facto de a Flórida ser um paraíso fiscal [cujos residentes não pagam imposto estadual, ao contrário de outros estados americanos], e Miami tornou-se imensamente popular, não só pelo local e pelo estilo de vida, mas também devido a este grande incentivo fiscal”, explica Solomont.
As primeiras figuras influentes do mundo da tecnologia e dos negócios a chegarem à Flórida incluíram um dos fundadores do PayPal, Peter Thiel, e o criador do fundo de investimento Citadel, Ken Griffin. A partir daí, foi surgindo um “fenómeno cumulativo”, explica De la Vega.
“Em parte, isto tem a ver com moda”, sublinha ela. São “pessoas que dizem ‘esta pessoa tem o mesmo dinheiro que eu e comprou ali, será que eu também devo comprar ali?'” Este fenómeno multiplicou a oferta dirigida ao mercado de ultraluxo nalgumas regiões, com o consequente aumento dos preços.
Ultramilionários em Miami
Mayi de la Vega acredita que existe uma regra clara relativamente aos preços do mercado imobiliário. “Algo primordial que se aprende no setor imobiliário é o conceito dos três ‘L’: localização, localização e localização.” No condado de Miami-Dade, isso significa vista para o mar ou para a baía.
“Os preços dos imóveis junto à água são mais elevados por serem muito poucos”, explica Solomont. “Na situação atual, temos mais compradores do que habitações disponíveis junto à água. E, até que isso mude, os preços vão continuar a subir.” O local que talvez reflita melhor esta realidade é a mais exclusiva das ilhas particulares de Miami, Indian Creek. O local, segundo De la Vega, “continua a liderar, em termos de preços astronómicos”.
Indian Creek é conhecida como o “bunker dos multimilionários”. Na ilha, ficam as mansões de Mark Zuckerberg, Jeff Bezos e Ivanka Trump. Apesar de não ser muito maior do que o Central Park, em Nova Iorque, Indian Creek tem o seu próprio presidente de câmara e policiamento próprio. O acesso faz-se através de uma discreta ponte branca, vigiada por duas guaritas de segurança.
“A pergunta é ‘porquê Indian Creek?'”, prossegue De la Vega. “Porque, tratando-se de uma ilha particular, tem muitas comodidades, lotes grandes e está rodeada de água, o que a torna um paraíso para os proprietários de barcos, além de ter uma segurança incrível.” “É uma ilha particular com campo de golfe, uma ‘ilha de milionários’ com terrenos que são vendidos por 200 milhões de dólares”, cerca de mil milhões de reais, explica De la Vega.
Mas o mercado de ultraluxo não se limita a comunidades isoladas como Indian Creek. North Bay Road é uma rua com cerca de 6,5 km de comprimento em Miami Beach. Aí ficam as casas de estrelas como Shakira e o casal David e Victoria Beckham.
O The Wall Street Journal calcula que existam em North Bay Road cerca de 1,7 mil milhões de dólares (1 4 mil milhões de euros) em imóveis, o que faz desta a rua com maior valor patrimonial dos Estados Unidos. Há também à venda imóveis de mais de 60 milhões de dólares em regiões mais tradicionais de Miami, como Coconut Grove, Coral Gables e Key Biscayne.