André Macedo

Método errado, sentido certo

Sim, a UGT tem sido imprestável neste processo. Sim, o Governo não tratou o país com o devido respeito. Não, a reforma laboral não pode ficar pelo caminho – tem de ser afinada, mas vai no sentido certo.

O Governo escolheu um mau caminho para a única reforma que se atreveu a iniciar, a da lei laboral. Em vez de marcar o arranque desta longa prova de obstáculos com uma apresentação pública sobre as razões da alteração – devidamente recheada de comparações internacionais capazes de moderar alguns incréus –, decidiu fechar a discussão na Concertação Social, expondo a empreitada a dois vírus fatais: a habitual demagogia dos sindicatos e o risco de enfrentar uma greve geral que vai mesmo acontecer. Segundo o líder da UGT, a única forma de a evitar seria a hipótese (grotesca) de o Governo, num bizarro ato de contrição, atirar o pacote inteiro para o lixo e recomeçar tudo de novo – o que não irá acontecer.

Se em vez da revisão do código laboral, Luís Montenegro tivesse apresentado uma obra pública qualquer, então, sim, teríamos direito a uma galática apresentação pública com maquetas e detalhes palpitantes. A infantilização da política assim o dita: ao povo só se explica o fácil; quando o assunto é mais exigente, mesmo afetando-o muito mais do que, por exemplo, um aeroporto, o assunto fica reservado a um grupo de luminárias com a fraca desculpa de que a ideia é valorizar a concertação social.

Como qualquer observador percebe, concertação social e apresentação pública poderiam conviver, reforçando-se e valorizando-se mutuamente, num círculo virtuoso cujo centro seriam as pessoas. Não é esse, afinal, o alfa e o ómega da política? Cometido este pecado original, a luta de galos a que temos assistido define-se pela desinformação, pela parcialidade e por mais uma camada de incerteza económica – não havendo acordo com os sindicatos, 2026 será marcado por mais greves e mais protestos, com efeitos penalizadores para a vida de cada de um nós e para a nossa já medíocre coesão social. Sim, a UGT tem sido imprestável neste processo. Sim, o Governo não tratou o país com o devido respeito. Não, a reforma laboral não pode ficar pelo caminho – tem de ser afinada, mas vai no sentido certo.

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