Foi esta República que me fez querer ser monárquico. Mário Soares dizia que não queria ser a “Rainha de Inglaterra”, mas agora apresenta “descendentes”, como foi o caso de Sampaio da Nóvoa. Ao lado de Soares, está ainda o socialista Sampaio, o Jorge I, aquele que em 2004 demitiu um governo apesar de ter maioria estável no Parlamento. Isso é coisa que um rei dificilmente poderia fazer, mas para um Presidente, pelos vistos, há licença para isso e muito mais. Os temas políticos do momento são o elogio de Passos Coelho a Dias Loureiro, o SMS de António Costa a insultar um jornalista do Expresso e ainda a recente biografia de Passos Coelho com farpas contra Paulo Portas. Mas, francamente, onde reside a novidade? Nenhum destes episódios revela qualquer surpresa sobre o carácter dos protagonistas.
Estava-se à espera que Passos Coelho insultasse Dias Loureiro? Que ignorasse a disputa com Paulo Portas? Alguém acreditava que António Costa seria diferente em termos de arrogância e respeito pela liberdade de Imprensa do que outros socialistas bem conhecidos? Quem quiser, que vote PSD, CDS ou PS nas próximas eleições. Eu, felizmente, já me libertei do “vício” de votar naqueles que nos trouxeram até aqui. Quanto aos meus camaradas jornalistas, aqueles que usam o “critério jornalístico” como o novo “lápis azul”, que façam um exame de consciência profissional e vejam onde começa e acaba a responsabilidade que têm em dar voz a todos aqueles que o povo sabe ser os culpados da baixa política.
Assim, em busca de alternativas em quem votar, constato o surgimento do PDR, Partido alegadamente Democrático e supostamente Republicano – isto para usar a terminologia das leis, visto que o putativo presidente, Marinho Pinto, foi advogado. Ex-bastonário da Ordem dos Advogado, até. Ao procurar informar-me sobre esta nova formação partidária, vi que irá ter o primeiro congresso a 24 deste mês.
Será no Fórum Lisboa, na Avenida de Roma, o mesmo local onde, até há pouco tempo, António Costa presidia às reuniões da Assembleia Municipal de Lisboa. Através de uma consulta à página de Internet do partido – www.partidodemocraticorepublicano.net – li a proposta de estatutos a serem aprovados. Diz lá, no ponto 2 do artigo 11, referente à figura do “Presidente” – do partido, não da República –, que este preside à Comissão Política. O ponto seguinte sustenta que é eleito por sufrágio direto e secreto de todos os militantes e, no ponto 4, acrescenta que “o Presidente é eleito para um mandato de quatro anos”, sendo que só pode ser renovado “consecutivamente” uma vez. Mais à frente, no artigo 13, referente à Comissão Política “presidida pelo Presidente”, vemos que esta é eleita pelo Conselho Nacional, “sob proposta do Presidente”. Mas, no ponto 2 deste artigo, lê-se que “o mandato da Comissão Política é de dois anos, podendo ser reconduzida”. Marinho Pinto, meus senhores, é o maior! Ele pode ser eleito por dois períodos de quatro anos, mas aqueles que estão abaixo de si só o podem ser por dois anos! E no ponto 3 do artigo 13, o PDR defende ainda que “os membros da Comissão Política podem ser substituídos a todo o tempo pelo Conselho Nacional sob proposta do Presidente do Partido”. Não percebo – deve ser problema meu, apenas – se aquele “a todo o tempo” significa “a qualquer momento” ou “a tempo inteiro”. No meio deste exemplo de Democracia e República, percebo melhor por que motivo Marinho Pinto não conseguiu ficar no MPT. A alegada democracia que ele defende não tinha ali terra para medrar. O partido que o monárquico Gonçalo Ribeiro Telles fundou em 1993 não é casa para a República que Marinho Pinto quer implantar. Agora, se isto é alternativa séria, temo mesmo pelo nosso futuro.
Frederico Duarte Carvalho
Jornalista e escritor