João Pedro Dias, Investigador em Assuntos Europeus

UE perdeu mais uma oportunidade

A eleição de António Guterres foi a prova provada de que Berlim tem muito a aprender sobre o que significa uma liderança e como se exerce uma liderança.

O recente processo de escolha do novo secretário-geral da ONU constituiu uma nova oportunidade perdida pela União Europeia (UE) para se afirmar no mundo global onde nos acontece viver e, sobretudo, para ensaiar a afirmação de uma política externa comum, tantas vezes invocada, mas nunca alcançada. Perante o desafio da escolha da mais relevante personalidade das diferentes organizações internacionais existentes, a primeira exigência que deveria ter recaído sobre os (ainda) 28 Estados-membros da União teria sido, no mínimo, a consensualização na apresentação de um único candidato ao cargo.

Que sentido faz, que sentido tem, uma entidade como a UE, que pretende ter uma política externa e de segurança comum, apresentar como candidatos a búlgara Irina Bokova, o português António Guterres, o esloveno Danilo Turk e a croata Vesna Pusic? Como se tudo isto não bastasse, perto da 25ª hora, ainda surgiria essa candidatura plena de aberração de outra candidata búlgara, a vice-presidente da Comissão Europeia Kristalina Georgieva. Ou seja, cinco candidatos oriundos de Estados-membros da UE para a eleição de um único candidato.

Esta começou por ser a primeira e mais relevante contradição e paradoxo em que a União caiu – e que, objetivamente, poderia ter significado entregar o cargo e a função a um não-europeu. Valeu-nos o facto de, entre esses cinco candidatos, um deles se destacar largamente dos demais, e de, para orgulho nosso, ter sido António Guterres a distinguir-se.

Além desta inexplicável pluralidade de candidaturas oriundas de Estados-membros da UE, outros factos contribuíram para a verdadeira “inexistência” da UE nesta pugna eleitoral que teve o Conselho de Segurança das Nações Unidas por palco. Desde logo, o triste papel desempenhado pela Alemanha e pela sua chanceler em todo este processo. Berlim foi o verdadeiro motor do lançamento da candidatura da senhora Georgieva. Habituada a mandar na Europa, Angela Merkel não percebeu uma coisa elementar: que o mundo já não é eurocêntrico e que nesse mesmo mundo a Alemanha não beneficia da posição de liderança ou supremacia que desfruta na Europa.

Como referiu alguém recentemente, esta foi a prova provada de que Berlim tem muito a aprender sobre o que significa uma liderança e como se exerce uma liderança. Se quisermos construir um autêntico manual do que não fazer numa situação destas, basta dar o exemplo de tudo o que Merkel fez. Fez tudo o que não devia ter feito; não fez nada do que devia ter feito. Instrumentalizou as instituições comunitárias, serviu-se do governo búlgaro, quis encostar Putin à parede, ignorou a posição dos EUA, traiu e violou compromissos de neutralidade que tinha assumido, faltou à palavra dada. Nada disto é particularmente novo em Merkel – basta ver a posição que assumiu para com o chanceler Helmut Kohl, que abandonou e traiu de forma ignóbil. Não tendo estado presente na mesa do Conselho de Segurança, a Alemanha de Angela Merkel foi, talvez, a grande derrotada da resolução aprovada pelo Conselho de Segurança.

Mas Merkel não esteve sozinha. Teve a incompreensível conivência de um Presidente da Comissão Europeia que caminha para um acelerado estado de descrédito; permitiu que o seu chefe de gabinete (alemão) desse indícios de apoiar a candidatura da sua vice-presidente. Pactuou com um incompreensível silêncio da sua vice-presidente e “ministra dos negócios estrangeiros da UE”, Federica Mogherini, e do serviço europeu para a ação externa (SEAE), verdadeira máquina diplomática da União.

Em síntese, as coisas correram de forma lamentável para a União em matéria de escolha do próximo secretário-geral das Nações Unidas. Foi uma nova oportunidade perdida para a União ou para o que dela resta e sobra. E só não foi ainda pior porque o mérito pessoal de António Guterres resgatou todas as insuficiências, contradições, asneiras e disparates que caracterizaram a atuação de Bruxelas.

Uma vez mais, Portugal – o tal Estado que quase faliu por três vezes nos últimos 40 anos – deu a mão à Europa e, dando-lhe um dos seus melhores, permitiu que o Velho Continente voltasse a ter um secretário-geral da ONU mais de 30 anos depois do último europeu ter exercido esse cargo. É uma daquelas coisas que não cabe em critérios de défice, dívida ou inflação; daquelas que não ocupam os ministros das Finanças no Eurogrupo ou no Ecofin. Mas que, ninguém o duvide, são muito mais importantes e muito mais relevantes do que as coisas que se traduzem em euros e se reduzem a curvas e a gráficos.

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