Pela primeira vez, duas regiões em países distintos enfrentam situações de fome confirmada em simultâneo: a Faixa de Gaza, na Palestina, e zonas do Sudão, nomeadamente El Fasher e Kadugli. Para além destas situações extremas, persiste uma crise menos visível mas igualmente devastadora: a chamada “fome oculta”, resultante de carências de micronutrientes, que afeta milhares de milhões de pessoas e compromete a saúde, o desenvolvimento económico e a estabilidade social, diz o WFP 2026 Global Outlook. Hunger and Hope: innovative Solutions to Adress Food Insecurity.
Os números são particularmente preocupantes entre os mais vulneráveis. Quase 38 milhões de crianças com menos de cinco anos sofrem de desnutrição aguda em 26 contextos de crise, enquanto 12 milhões de mulheres grávidas ou a amamentar permanecem subnutridas.
Conflitos e clima no centro da crise
Os conflitos continuam a ser o principal motor da fome. Em 2025, 69% das pessoas em situação de insegurança alimentar aguda viviam em países afetados por fragilidade ou violência. Países como Haiti, Mali, Palestina, Sudão do Sul, Sudão e Iémen estão entre os mais afetados, com risco elevado de agravamento da situação.
A par da guerra, os fenómenos climáticos extremos intensificam a crise. Secas prolongadas, cheias e tempestades estão a destruir sistemas alimentares frágeis. Na Síria, por exemplo, a produção agrícola caiu mais de 60% face à média. No sul da Ásia e em África, milhões de agricultores enfrentam simultaneamente insegurança e eventos climáticos extremos.
O fenómeno La Niña poderá agravar ainda mais a situação, com previsões de menor pluviosidade em regiões já vulneráveis como o Corno de África e o Médio Oriente, enquanto o sul de África enfrenta maior risco de ciclones.
Menos ajuda, mais necessidades
Apesar do agravamento das necessidades, o financiamento humanitário está a diminuir. O orçamento do WFP caiu 40% entre 2024 e 2025, forçando cortes significativos na assistência. Em países como o Uganda e o Níger, milhões de pessoas ficaram sem apoio alimentar.
A ajuda internacional também está em retração, com a Assistência Oficial ao Desenvolvimento a cair até 17% adicionais em 2025. Este recuo tem consequências diretas: o WFP estima que mais 13,7 milhões de pessoas possam cair em níveis de fome de emergência.
Ao mesmo tempo, os custos operacionais aumentam, especialmente em zonas de difícil acesso. No Sudão do Sul, por exemplo, a entrega de alimentos por via aérea pode custar até 70 vezes mais do que por transporte terrestre.
Inovação como resposta — mas não suficiente
Perante este cenário, o WFP aposta na inovação para maximizar o impacto dos recursos disponíveis. Ferramentas de inteligência artificial estão a ser utilizadas para otimizar cadeias de abastecimento, prever crises e melhorar a distribuição de ajuda. Sistemas de alerta precoce e financiamento antecipado permitem agir antes que desastres ocorram.
Ainda assim, especialistas alertam que a tecnologia, por si só, não resolve o problema. A resolução de conflitos e o reforço do financiamento continuam a ser essenciais.
Uma ameaça global
A fome deixou de ser apenas uma crise humanitária — é agora uma ameaça à estabilidade global. Está associada ao aumento de conflitos, fluxos migratórios e fragilidade económica.
“O combate à fome não é apenas uma questão moral, mas uma condição essencial para o crescimento económico e a segurança global”, sublinha o relatório.
Sem uma resposta internacional robusta e coordenada, 2026 poderá marcar um ponto de viragem negativo — com consequências que ultrapassam fronteiras e afetam o equilíbrio mundial.