Cientistas criam bolachas com proteína produzida a partir de plástico

E se a próxima bolacha que comer tiver começado a vida dentro de uma garrafa de água? Parece ficção científica, mas já existe. Investigadores norte-americanos estão a usar microrganismos para transformar plástico e resíduos agrícolas em proteínas, vitaminas e aromas. O resultado chama-se µBites e pode vir a alimentar humanos na Terra ou astronautas a caminho de Marte.

Cientistas criam bolachas com proteína produzida a partir de plástico
Comunicações da SIU Carbondale

Uma garrafa de plástico pode ter uma segunda vida… e acabar no prato. Parece o início de uma piada de mau gosto, mas é ciência – e da boa.

Uma equipa de investigadores da Southern Illinois University (SIU) desenvolveu uma tecnologia capaz de transformar resíduos de plástico e desperdícios agrícolas em ingredientes alimentares ricos em proteína. O objetivo? Criar uma nova forma de produzir alimentos sustentáveis, capazes de alimentar pessoas em cenários extremos, desde zonas afetadas por catástrofes naturais até futuras missões espaciais rumo a Marte.

Os resultados foram apresentados esta semana no congresso de outono da American Chemical Society (ACS), em Chicago.

Veja o vídeo aqui: https://www.youtube.com/watch?v=YQywN1VuMKU

Do PET à proteína

O processo começa com um dos plásticos mais comuns do mundo: o PET, utilizado em garrafas de água e refrigerantes. Em vez de seguir o caminho habitual da reciclagem, este material é sujeito a um processo que o decompõe em moléculas mais simples, juntamente com restos de biomassa agrícola, como caules e folhas de milho.

É aqui que entram as verdadeiras protagonistas da história: as leveduras geneticamente programadas.

Os investigadores modificaram diferentes estirpes de leveduras – incluindo a conhecida levedura de padeiro – para converter esses compostos em proteínas, vitaminas, gorduras e moléculas responsáveis pelo sabor dos alimentos.

“Os microrganismos são extremamente inteligentes. Estamos a aproveitar as suas capacidades para resolver problemas que nós próprios criámos”, explica Lahiru Jayakody, professor associado da SIU e líder da investigação em comunicado.

As µBites: bolachas impressas em 3D

Depois da fermentação, a mistura é enriquecida com fibra, amido e adoçantes e moldada através de uma impressora 3D, dando origem às chamadas µBites (“microbites”), pequenas bolachas ricas em proteína.

Sim, leu bem: uma bolacha que começou a sua vida como uma garrafa de plástico. Apesar de os testes laboratoriais indicarem que o produto é seguro para consumo humano, os investigadores ainda aguardam autorização para realizar provas de degustação. Até agora, apenas o aroma foi avaliado, com resultados encorajadores: a maioria dos participantes afirmou que estaria disposta a consumir estas bolachas em situações de escassez de alimentos.

Mais sabor, mais vitaminas

A equipa continua a aperfeiçoar a receita. Uma das leveduras foi modificada para produzir aroma natural de baunilha a partir de resíduos vegetais. Outra consegue transformar o etilenoglicol proveniente do PET em beta-caroteno, precursor da vitamina A.

O objetivo é tornar as µBites não apenas nutritivas, mas suficientemente apetecíveis para que um dia possam chegar às prateleiras dos supermercados — e não apenas às despensas de astronautas.

Uma solução para o futuro?

O projeto nasceu no âmbito do NASA Deep Space Food Challenge, um programa que procura soluções alimentares para missões espaciais de longa duração. No entanto, os investigadores acreditam que a tecnologia poderá ter aplicações muito mais vastas.

Com a procura global de alimentos a aumentar e milhões de pessoas em risco de insegurança alimentar nas próximas décadas, transformar resíduos em comida poderá deixar de ser uma curiosidade científica para se tornar uma necessidade.

A equipa espera que as µBites possam estar prontas para consumo público dentro de alguns anos.

Segundo o “The Guardian”, atualmente, os biscoitos custam 60 dólares por quilograma, mas melhorar a eficiência da levedura e aumentar a produção deve reduzir o custo no futuro.

“A equipa sugere que, além das viagens espaciais de longa distância, o conceito pode ser útil em ambientes extremos na Terra, como em submarinos ou zonas de desastre – ou até mesmo como uma solução ecológica convencional para os desafios duplos de resíduos plásticos e produção de alimentos”, explica a mesma fonte, acrescentando: “A procura global de alimentos deve aumentar de 35% a 56% até o ano de 2050, e cerca de 30% da população mundial estará em risco de fome no futuro, ” diz Jayakody ao “The Guardian”.

No comunicado concluiu: “Micróbios são muito espertos. Então, estamos a usar as suas características para resolver os problemas que criamos!”

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