Redação

Lisboa e a ver se chove

Lisboa sempre foi fustigada por intempéries ocasionais. Mas nunca como agora o efeito da chuva persistente prejudicou tanto o quotidiano dos seus habitantes. A tal ponto que as pessoas já começam a encarar com apreensão cada aguaceiro mais forte, receosas dos seus efeitos nas praças e nas ruas da cidade. Algo impensável em qualquer outra capital desta Europa que se pretende evoluída e civilizada.
É inaceitável vivermos tão dependentes dos humores ocasionais da meteorologia. Noutras urbes europeias, onde chove muito mais do que em Lisboa, não nos chegam imagens semelhantes às que se tornaram familiares a quem vive ou trabalha na capital portuguesa.
Imagens pungentes de pessoas que em poucos minutos viram os seus carros afogados em súbitas enxurradas de água e lama – algumas das quais tiveram as próprias vidas em risco. Certamente nenhuma delas esquecerá os sustos experimentados nessas tardes de pesadelo.
Imagens dramáticas de comerciantes em choque ao verem os seus estabelecimentos alagados, com prejuízos incalculáveis, não por algum insondável desígnio dos deuses mas pela inaceitável incúria dos homens. Incúria que, neste caso, tem um responsável evidente. Refiro-me ao presidente da Câmara Municipal de Lisboa, responsável máximo pelos destinos da cidade, que por estes dias anda tão desfigurada. Um autarca que tem feito da capital mero trampolim para outros voos políticos, revelando uma indiferença por vezes arrepiante face ao infortúnio dos seus munícipes.
É legítimo que António Costa sonhe com outros cargos, mas é intolerável que o faça manifestando tamanha insensibilidade pela população de Lisboa. Ao afirmar, como já afirmou, que “não existe solução” para as cheias alfacinhas, o autarca não se limita a uma surpreendente confissão de impotência: passa também um inaceitável atestado de incompetência a toda a sua vasta equipa. Problemas sem solução só é uma fatalidade para quem não quer resolver os problemas da cidade.
Se Lisboa falasse, gritaria aos quatro ventos um protesto bem sonoro ao ver-se tão maltratada por aqueles que juraram cuidar dela.

Mauro Xavier
Gestor

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