António Moita, Jurista

Lideranças europeias ameçadas

O verdadeiro risco está em que os cidadãos europeus percebam, tal como aconteceu com os americanos, que para mudar de políticas terão primeiro, e com toda a rapidez, de mudar de políticos.

Os dias seguintes à eleição de Donald Trump como novo Presidente dos EUA têm sido de preocupação pela incerteza do que virá a ser a sua governação. Mas têm servido também para que os comentadores habituais se entretenham a desqualificar o povo americano que elegeu tão excêntrico candidato.

Jean-Claude Juncker, o original Presidente da Comissão Europeia, lembrou-se de dizer que seria necessário ensinar a Trump o que era a Europa e gracejou com o facto deste não saber onde se situa a Bélgica. Com tanta descontração ainda alguém se lembrará de vir dizer que a região que Juncker melhor conhece nos EUA é seguramente a de Napa Valley, tão boa é a sua produção vinícola.

Gracejos à parte, parece evidente que os cidadãos americanos – pelo menos os 60 milhões que votaram em Trump – optaram pela mudança sem querer saber se esta decisão era politicamente correta ou se daí viriam males maiores ao mundo. Problemas como o crescimento tímido da economia, a difícil relação comercial com a China e com outras economias emergentes, o relacionamento com a Rússia de Putin, a insegurança interna crescente em resultado de tensões raciais, a ameaça dos grupos extremistas islâmicos, o aumento do número de ilegais provenientes de outras geografias vizinhas, o peso dos impostos e a natureza dos serviços que o Estado deve prestar, são alguns dos assuntos que carecem de novas respostas. As que Trump à sua maneira deu e que Hillary Clinton, a candidata mais cinzenta e plástica de sempre, nunca conseguiu dar.

A Velha Europa e os seus ainda mais velhos líderes vieram alertar para os perigos do populismo quando se sabe estarem a chegar, já em 2017, eleições na Holanda, na França e na Alemanha. Mas se, como nos pretendem fazer crer, a excentricidade de Trump é um fenómeno causado pela iliteracia do povo americano, onde está a razão para tantos receios?

Bem vistas as coisas, a Europa enfrenta hoje dificuldades que resultam do fraco crescimento das suas economias, da difícil penetração dos seus produtos no mercado global, da insegurança crescente em resultado de tensões raciais e religiosas, da indefinição quanto a uma estratégia de relacionamento com a Rússia, da ameaça permanente e dispersa de grupos terroristas islâmicos, do aumento descontrolado e imparável do número de refugiados provenientes de países em guerra e com culturas diferentes, do exagerado peso da carga fiscal e da incerteza quanto à sobrevivência do Estado Social tal como o conhecemos.

A comparação, assim colocada, é terrível. Afinal, os problemas que Trump quis discutir com os americanos são basicamente os mesmos que afligem hoje os cidadãos europeus. Por isso é que líderes europeus mais avisados logo surgiram a propor uma reflexão sobre as consequências das eleições americanas, e a apelar ao reforço da unidade e coesão no espaço europeu. Compreenderam finalmente que o verdadeiro risco está em que os cidadãos europeus percebam, tal como aconteceu com os americanos, que para mudar de políticas terão primeiro, e com toda a rapidez, de mudar de políticos.

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