Irão: Fim do regime pode levar a disparo nos mercados obrigacionistas

Traçando um paralelo com a situação vivida após a queda do muro de Berlim, em que o excesso de poupanças ocidental foi canalizado para fortalecer a Alemanha Oriental e gerou um disparo nas taxas de longo prazo, os analistas da Gavekal alertam para a possibilidade de igual cenário com a queda do regime dos mullahs no Irão.

Irão: Fim do regime pode levar a disparo nos mercados obrigacionistas
Raheb Homavand / Reuters

A eventual queda do regime teocrático iraniano arrisca gerar efeitos nos mercados financeiros globais semelhantes à reunificação da Alemanha, ou seja, um disparo nas taxas reais das dívidas nos mercados ocidentais. A necessidade de recuperar a infraestrutura do país levaria a um enorme fluxo de capital para capturar estes retornos e, dado que grande parte desse capital viria dos mercados obrigacionistas ocidentais, as taxas de mercado subiriam em resposta.

A tese é defendida pelos analistas da Gavekal, que revisitam a queda do muro de Berlim, em 1989, para antecipar os possíveis efeitos no mercado obrigacionista global de um fenómeno semelhante no Irão, onde os protestos populares a exigirem o fim do regime dos aiatolás têm sido uma constante na última semana.

À altura, a necessidade de aumentar os padrões de vida na Alemanha Oriental e de estabelecer uma rede de telecomunicações entre os dois blocos levou à mobilização das poupanças do lado Ocidental, uma economia tipicamente em excesso de poupança. Assim, “os alemães tiveram de utilizar as poupanças que haviam acumulado ao longo das décadas em bunds e outros mercados obrigacionistas – posto de forma simples, tiveram de vender obrigações”.

Este movimento levou as taxas de longo prazo a dispararem mais de 200 pontos base (pb), o que “gerou o caos no mecanismo europeu de taxas de câmbio, levando a Itália, Suécia e Reino Unido a abandonarem o sistema”.

“Em dois anos, a Europa Ocidental tinha entrado em recessão e a conta corrente alemã em défice”, lembra a nota do think-tank.

Aplicando esta lógica à atual situação no Irão, é expectável que, caso o regime de Khamenei não sobreviva aos protestos, “a infraestrutura local seria recuperada, o comércio com países vizinhos retomaria, o turismo reabriria e as universidades também”, levando a uma taxa de juro natural muito acima da atual. De seguida, haveria um enorme fluxo de capitais para o país “para capturar estes retornos anormais” e, em consequência, uma subida assinalável nas taxas de mercado na maioria nos títulos da maioria dos países da OCDE.

“É aqui que os problemas podem surgir no futuro imediato: um disparo nas taxas de juro de mercado das economias ocidentais pode tornar a sua situação orçamental muito pior do que se os lunáticos tivessem permanecido no poder em Teerão”, alertam os analistas.

Pior: esta vulnerabilidade é agravada por uma tendência semelhante já observável nos mercados ocidentais, mas centrada nos países asiáticos. Depois de anos a acumular poupanças que depois eram aplicadas em mercados ocidentais para estes países obterem dólares com os quais comprariam petróleo, a possibilidade de comprarem barris usando as suas divisas diminuiu o apetite por estes ativos.

“Atualmente, as taxas pagas pelos devedores ocidentais aos financiadores orientais é muito abaixo da taxa natural que os investidores do Oriente podem obter se simplesmente comprarem as suas obrigações ou ações. Como tal, os investidores orientais irão vender os títulos do Ocidente – ou pelo menos deixar de os comprar”, resume a nota.

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