O Irão apelou aos países muçulmanos para imporem um embargo à venda de petróleo a Israel – na tentativa de exercer pressão sobre a guerra contra o Hamas – grupo radical que controla a Faixa de Gaza e é financiado (entre outros apoios) pelo próprio Irão.
A história recente dos embargos à venda de petróleo demonstra que a sua capacidade de atingir os objetivos propostos são muito reduzidas: as sanções impostas nesta área à Rússia não têm efeitos profundos nas receitas russas – dada a enorme apetência global por aquela commoditie.
O contrário passou-se em 2018, quando o então presidente norte-americano Donald Trump impôs sanções à compra (e à exploração direta) de petróleo iraniano. Nessa altura – com a francesa TootalEnergie em primeiro plano – as petrolíferas ocidentais trataram de deixar rapidamente o Irão e o embargo sortiu grande efeito. A razão era apenas uma: as sanções previam que as empresas que continuassem a fazer negócios com o Irão iriam ser proibidas de atuar nos próprios Estados Unidos! Nenhuma empresa esteve disponível para arriscar semelhante ‘efeito colateral’.
Para os analistas, a questão que se coloca, portanto, é perceber até que ponto um embargo à venda de petróleo a Israel por parte do Islão terá ou não repercussões na economia do Estado hebreu. Analistas citados pelos jornais afirmam. A realidade é que o mercado petrolífero é global, o que dá a Israel ampla margem para superar uma medida deste tipo, referem analistas citados pelo jornal “El Economista”.
Além disso, não parece que a OPEP+ ou outros produtores tenham dado muito apoio à ideia de Teerão. Para que tal medida – se adotada – tivesse repercussões, dependeria da participação do Cazaquistão e do Azerbaijão.
Desde meados de maio, Israel importou cerca de 220 mil barris de petróleo bruto por dia, dos quais cerca de 60% proveem dos dois países asiáticos de maioria muçulmana, segundo dados da empresa de análise Kpler recolhidos pela Bloomberg. Os produtores da África Ocidental, principalmente o Gabão, são outros fornecedores importantes. Neste quadro, os produtores do Médio Oriente representam uma parcela muito pequena do abastecimento de petróleo bruto de Israel. O Irão, evidentemente, não vende petróleo ao seu declarado maior inimigo – e Israel por certo ali não se abasteceria naquele país nem que para isso tivesse de estacionar definitivamente todos os automóveis que circulam no país!
Os analistas consideram assim que Israel teria (ou terá) muitas alternativas de abastecimento se ocorresse um embargo total por parte das nações muçulmanas. Olhando para o quadro geoestratégico, em princípio Cazaquistão e Azerbaijão só aceitariam participar num embargo que a Rússia se ‘intrometesse’ no assunto: as duas ex-repúblicas soviéticas não estão numa situação geográfica que lhes permita não olharem com atenção qualquer ‘recado’ vindo de Moscovo – mas as pressões do Irão não têm, nem de longe, o mesmo impacto.
Por outro lado, os Estados Unidos, um aliado fundamental de Israel, têm sido o maior fornecedor adicional de petróleo bruto ao mercado mundial este ano. As exportações do Brasil, que abasteceu Israel nos últimos meses, também estão a aumentar rapidamente. O país liderado por Lula da Silva tem feito uma ‘viagem’ para as proximidades geopolíticas da China e tem demostrado alguma fidelidade a Moscovo – mas não parece que Brasília ganhe alguma coisa com uma postura ‘anti-Israel’, apedar do texto da resolução reprovada esta quarta-feira na ONU (redigida pelo Brasil e que ostensivamente não tratava o Hamas como grupo terrorista). Mas as alternativas são muitas e Israel sabe que, se for necessário, os Estados Unidos priorizarão o abastecimento de Israel, nem que, em princípio, para isso tenham de ‘ratar’ o abastecimento de outros mercados.
Assim, para os analistas, o problema mais premente para Israel é garantir a segurança dos portos petrolíferos e das suas águas territoriais para que as importações possam entrar com segurança. Possui três terminais de importação de petróleo bruto: Ashkelon e Haifa, no Mediterrâneo, e Eilat, no Mar Vermelho. E também possui uma fronteira marítima com o Líbano – país que está em regime de ‘pré-guerra’ com Israel. O Estado hebraico tem todas as razões para olhar com atenção para o que vem do outro lado desta fronteira marítima.