A primeira fase desta guerra foi desenhada para esmagar a capacidade de projecção convencional do Irão. Fazia-se sobretudo no subsolo dos bunkers, nos centros de comando, nas bases aéreas, e media-se em plataformas destruídas e quilotoneladas lançadas sobre alvos estratégicos. A fase em que entrámos agora é mais difusa: conta-se menos em batalhas vencidas e mais em perímetros alargados, menos no dano físico de cada míssil ou drone e mais no custo político que conseguem impor aos que ainda se julgavam espectadores.
O padrão desta segunda semana não deixa margem para leituras alternativas. Há relatos consistentes de munições de fragmentação lançadas sobre zonas civis, ainda em processo de verificação independente, mas compatíveis com o padrão de escalada observado. Ataques directos a Estados não beligerantes e a activos económicos de países que não têm qualquer parte neste conflito. Pressão sistemática sobre navios em águas internacionais. Ameaça reiterada de bloqueio do Estreito de Ormuz. Não é a estratégia de uma potência regional em ofensiva; é a estratégia de um actor que perdeu a capacidade de escalada vertical e descobriu que a única alternativa que lhe resta é alargar o perímetro do conflito até que o custo para terceiros se torne politicamente intolerável.
O Irão entrou numa guerra apenas híbrida. Não por doutrina, mas por necessidade. Aposta agora nas suas capacidades mais insidiosas, drones, rockets, ciberataques, guerra de informação, terrorismo onde conseguir activar as redes para isso, precisamente porque lhe falta o poder de choque convencional que tinha antes de Junho de 2025. Esta transição não é uma escolha estratégica; é o inventário do que sobrou.
Quando um actor perde a capacidade de escalada vertical, quando já não pode ameaçar com superioridade convencional, a alternativa racional é a coacção pelo alargamento do perímetro. Não se vence militarmente; impõe-se um custo político e económico difuso que torne a continuação da guerra mais cara do que a negociação. As munições de fragmentação em zonas civis não visam o campo de batalha. Visam a opinião pública europeia e latino-americana, elo mais fraco da coligação adversária, o auditório que alimenta a pressão sobre Washington. A brutalidade calculada tem destinatário: não é Telavive, são as capitais ocidentais em geral. Neste esforço, Teerão conta com o apoio activo de Moscovo, não em mísseis, mas em narrativa, em desinformação, no ecossistema mediático russo que trabalha a tempo inteiro para amplificar cada imagem de dano civil iraniano e silenciar cada relatório de capacidade militar destruída.
Israel e os Estados Unidos fariam bem em ter presente, nesta nova fase, quem foram os mestres. Foi o Irão que ensinou ao Hezbollah e ao Hamas as técnicas de encobrimento de forças militares em zonas civis. Foi Teerão que desenvolveu e exportou a doutrina de esconder armamento e zonas de lançamento debaixo de hospitais, escolas e casas particulares, nas proximidades de organizações internacionais e, em muitos casos, através da infiltração das mesmas. O que o Irão está agora a tentar fazer no seu próprio território e com os fragmentos da sua rede é exactamente o que durante décadas ensinou a outros. O mestre conhece os seus próprios truques melhor do que ninguém, e subestimá-lo nesta fase seria um erro simétrico ao de o ter sobrestimado antes.
A Operação Rising Lion, em Junho de 2025, foi o primeiro golpe directo ao núcleo: infraestrutura nuclear, comando do CGRI, capacidade de mísseis balísticos e início da destruição das capacidades militares clássicas, com a força aérea e a marinha iranianas a serem então severamente degradadas. O ataque combinado americano-israelita desta semana, no quadro da operação Lion’s Roar, completou esse trabalho, eliminando o que restava de poder de projecção convencional. São duas fases de uma mesma lógica sequencial: primeiro cortar os tentáculos, depois golpear a cabeça, depois desmantelar o corpo. O Irão de Março de 2026 já não tem força de projecção convencional; tem infantaria e tem os instrumentos leves da guerra híbrida.
O Irão de Junho de 2025 não era o Irão de 2020. Era um Irão desmantelado por camadas, ao longo de quase uma década, em silêncio deliberado. O Hamas destruído como força militar funcional. O Hezbollah tão profundamente golpeado em 2024 que, durante os doze dias da Rising Lion, não disparou um único míssil contra Israel, o mesmo Hezbollah que em 2006 tinha mantido o norte de Israel em estado de sítio por mais de um mês, hoje reduzido a uma fracção da sua capacidade de fogo e de manobra, embora não eliminado. Os Huthis, que ainda em 2024 se apresentavam como poder naval regional capaz de interditar o Mar Vermelho, estão hoje limitados a poucos ataques simbólicos e a um efeito de disrupção mais psicológico do que operacional. As milícias iraquianas a lançar quarenta drones: um gesto, não uma estratégia. E, acima de tudo, a queda de Assad em Dezembro de 2024, com o presidente sírio forçado ao exílio em Moscovo, a fechar o corredor logístico sírio que sustentara o Hezbollah durante quarenta anos. A chamada doutrina do polvo pressupunha que os tentáculos absorvessem o primeiro golpe enquanto a cabeça se protegia. Israel cortou os tentáculos antes de atacar a cabeça. Quando a Rising Lion atingiu o núcleo do regime, atingiu um animal já amputado.
O que sobrou ao Irão foi, rigorosamente, o instrumento para o qual fora concebido como actor híbrido desde o princípio: a guerra leve, com toda a insídia que lhe é própria. O Artesh ficou com os seus meios terrestres. A Guarda Revolucionária Islâmica ficou com drones, rockets, operações cibernéticas e redes de influência, instrumentos que sempre constituíram o núcleo da sua doutrina assimétrica e que agora são tudo o que tem.
A resolução aprovada ontem no Conselho de Segurança, proposta pelo Bahrein em nome dos Estados do Golfo e apoiada por mais de uma centena de países na Assembleia Geral, expõe com clareza o grau de isolamento a que Teerão chegou. Com treze votos a favor e as duas abstenções expectáveis dos seus patrocinadores, Rússia e China, abstenções que não são neutralidade mas cobertura diplomática com “plausible deniability”, o Conselho condenou nos termos mais fortes os ataques iranianos contra países do Golfo, afirmou o direito de autodefesa dos Estados atacados e classificou as acções de Teerão como ameaça à paz e segurança internacionais. Mais do que uma condenação, a votação revela um facto político: o Irão está crescentemente isolado nas instâncias multilaterais, a propaganda russa e chinesa e os seus representantes no Ocidente não obstante. Países como o Bahrein, o Kuwait, a Turquia, que discretamente sempre os defendera, o Azerbaijão e mesmo o Catar, que na prática esteve sempre intimamente envolvido com o regime islâmico, encontram-se agora em cima do muro ou com críticas abertas. Mesmo que o regime sobreviva, não voltarão à postura anterior. A reacção desesperada e dispersa de Teerão conseguiu, paradoxalmente, três coisas que nenhum adversário lhe teria conseguido impor por via diplomática: colocou contra si todos os países vizinhos, consolidou uma versão informal dos Acordos de Abraão na legitimação de Israel e deu a extrema-unção ao Hezbollah no Líbano.
Os recentes ataques a Israel não contradizem este diagnóstico; confirmam-no. São o esforço último de uma organização gravemente debilitada, sem a profundidade de meios que tinha, sem retaguarda logística, sem corredor sírio. E a resposta militar israelita, combinada com o fim da conivência histórica das autoridades libanesas com a sua presença armada no país, fecha o cerco. O Hezbollah que sobreviver a esta guerra não será o mesmo que a entrou.
Tenho assistido com interesse às múltiplas acusações, muitas sem fundamentação, de que o ataque americano-israelita ao Irão constituiria uma afronta ao direito internacional. Tenho visto poucos a dizer o mesmo sobre as violações claras e documentadas cometidas pelo próprio Irão. O uso de munições de fragmentação em zonas civis viola o direito internacional humanitário consuetudinário. Ataques a navios em águas internacionais violam a CNUDM. A ameaça de bloqueio de Ormuz contraria o princípio da liberdade de navegação codificado em múltiplas resoluções do Conselho de Segurança. Ataques a Estados terceiros não beligerantes colidem frontalmente com o artigo 2.º, n.º 4, da Carta das Nações Unidas. São violações claras, sem argumento jurídico sustentável em sentido contrário. O que o Irão está a fazer é exactamente aquilo de que sempre acusou os seus adversários: instrumentalizar as normas quando conveniente e violá-las quando o imperativo de sobrevivência o exige.
A surdez selectiva tem explicação. As redacções ocidentais têm correspondentes permanentes em Israel, nos Emirados Árabes Unidos, na Arábia Saudita, no Catar. Não os têm em Teerão e, quando os têm, estes operam sob controlo estrito do regime. Um míssil iraniano que cai perto de Telavive tem câmaras, testemunhos e análise em tempo real. Um ataque que destrói uma instalação militar em Isfahan tem, na melhor das hipóteses, imagens de satélite e o comunicado do CENTCOM. A cobertura intensa de um incidente menor cria aquilo a que os psicólogos chamam “availability heuristic”: o que é mais vividamente relatado parece mais grave. Um drone iraniano interceptado sobre o deserto do Neguev gera horas de cobertura; a destruição de um complexo de mísseis balísticos, com dezenas de mortos do lado iraniano, é uma nota de rodapé. O regime percebeu isto muito cedo e usa-o activamente, com o apoio entusiástico da máquina de desinformação russa, que não precisa de inventar porque basta amplificar a assimetria que já existe. O resultado é paradoxal: cria-se a narrativa de um Irão que ataca constantemente e sofre pouco, quando a realidade operacional é precisamente a inversa. Comentadores que deveriam saber melhor caem nesta armadilha porque trabalham com o mesmo conjunto de dados enviesados que o público em geral. É uma guerra de percepções em que o lado que está a perder militarmente pode estar a ganhar narrativamente em certos contextos, pelo menos a curto prazo.
Esta guerra pode não ser ainda o fim do regime iraniano, mas é um passo decisivo nessa direcção. Um sistema destruído economicamente, corroído por anos de sanções e má gestão, e agora desmantelado militarmente nos seus instrumentos de projecção externa, dificilmente recuperará a autoridade necessária para se reinventar. Não é por acaso que as primeiras grandes fissuras internas apareceram na escolha do sucessor de Ali Khamenei: um processo marcado por facções em confronto aberto e por lealdades cruzadas entre o CGRI, o clero e os velhos guardiões da revolução. A simbologia do poder religioso que o regime exibiu durante décadas está muito abaixo do que foi. A crise que inicialmente levou a população às ruas não desapareceu; foi apenas recoberta por uma guerra que o regime já não controla completamente.
Do ponto de vista estratégico, a mensagem que esta sequência de operações envia não se dirige apenas a Teerão. A Operação Rising Lion, em Junho de 2025, e a ofensiva actual, Lion’s Roar, são dois momentos de uma mesma doutrina: mostram como uma combinação de inteligência, “shadow warfare” e poder aéreo concentrado pode, em poucos anos, degradar estruturalmente a capacidade de um Estado hostil. Washington quis que Pequim, e em menor medida Moscovo, ouvissem esse recado com atenção: a rede de proxies e de “procurement” de recursos com que a China tenta contornar vulnerabilidades estratégicas não é intocável. O que aconteceu ao Irão não é um caso regional. É um aviso.