Na última semana, foi divulgado que o grupo Jerónimo Martins aumentou os lucros em mais de 50% enquanto a GALP Energia aumentou 496%, ambos em termos homólogos. Em paralelo, o Eurostat previu para o mesmo período um crescimento homólogo de 5% para a zona euro e de 11,9% para Portugal, a maior variação entre este grupo de países.
O resultado destes gigantes reflete a recuperação portuguesa, mas um aumento extraordinário de lucros contra um crescimento real da economia portuguesa de 5,5% (OE 2022), tem certamente origem noutros fatores. E dá que pensar, até por surgir depois do primeiro-ministro ter declarado que uma subida dos salários daria azo a uma espiral inflacionista.
Perante resultados semelhantes no Reino Unido, Andrea Coscelli, Diretor Executivo da Autoridade da Concorrência e dos Mercados, assegura que a concorrência nunca esteve em níveis tão baixos, conduzindo à subida dos preços no seu país. Segundo Coscelli, a diferença entre preços e custos de produção dos bens e serviços produzidos pelas grandes empresas aumentou de 58% para 82% nos últimos 20 anos.
De acordo com o “The Guardian”, nos EUA as grandes empresas estão hoje a aumentar os preços aos consumidores finais numa proporção superior à necessária para cobrir o aumento dos seus custos.
O aumento do poder de mercado não é recente e é até apontado como uma das causas do alargamento da desigualdade (OCDE, 2017). A pandemia acentuou os desequilíbrios ao ampliar a concentração em setores de atividade como os das tecnologias digitais. E a subida dos custos de produção, agora empolada pela guerra, poderá incitar ainda mais a dilatação dos lucros das grandes empresas.
A economista Isabella Weber propôs assim que se controlem os preços para impedir lucros extraordinários, os grandes responsáveis pela inflação atual. Bastante criticada na sua análise, exercícios como os da Jerónimo Martins atestam a perspicácia de Weber. Também Philipp Heimberger (Social Europe) reclama o reforço de políticas de concorrência para contrariar as espirais de lucro-preço que são praticadas por empresas com poder de mercado.
Formas de promover a concorrência e limitar os abusos de poder dominante são imprescindíveis para travar a concentração de mercado, mas de per si não impedem que as margens de preços sobre os custos sejam unicamente absorvidas pelas empresas. Incentivar o aumento dos salários é a forma expedita de contrariar o declínio da parcela do PIB destinada à remuneração da mão de obra (Economic Policy Institute, 2019) e permitir uma distribuição de ganhos entre os fatores trabalho e capital. Gerará inflação? Sobretudo permitirá aumentar a procura interna que sustenta a produção.
Aliás, por uma questão de coerência, se se preconiza a contenção dos salários como forma de evitar a escalada da inflação, há que definir medidas que limitem os lucros exorbitantes das grandes empresas, como aliás defendido recentemente pelo FMI. A não ser, claro está, que o objetivo seja favorecer um país ainda mais desigual.