Bruno Carapinha, Investigador

Impossível!

Nas eleições francesas, tal como nas americanas, um combate entre uma candidatura de sistema, que não entusiasma, e uma demagoga, com um grupo fiel, cria as condições para uma catástrofe.

Os gregos antigos, quando acorriam ao teatro, conheciam as histórias das tragédias em cena. Os heróis cometeriam um erro fatal e a sucessão de acontecimentos, fora do seu controlo, levá-los-ia a uma punição desproporcionada. O erro nascia do orgulho e da arrogância com que desafiavam a vida e as forças divinas, o que os tornava bem humanos. E eram todos, heróis e plateia, recordados da fragilidade e da ausência de domínio sobre a vida.

Os contemporâneos perderam esta noção. Viciados nos finais felizes e na ideia de controlo, vamos ao espectáculo para – com uma ou outra reviravolta ou explosão – encontrar um final redentor, um equilíbrio justificador ou uma vitória dos heróis, mesmo que inverosímil. Pacificados com a ordem na arte que imita a vida, esperamos que a vida imite a arte.

Na noite de 23 de Abril, a Europa parecia aliviada. O segundo lugar de Marine Le Pen  nas presidenciais francesas não estava além de uma medida de controlo. As elites receavam um confronto Le Pen-Mélenchon ou resultados que não deixassem antecipar o desfecho. Na primeira volta cada um segue as suas convicções, mas a segunda exige grande pragmatismo. Apenas 45% dos eleitores votou em Macron ou Le Pen – e a maioria terá de engolir sapos e escolher entre os dois. Um exercício racional, portanto.

Por isso, um confronto com a plataforma xenófoba de Le Pen deveria ser uma passeata para qualquer candidato. Uma barreira democrática erguer-se-ia, tal como em 2002, e a vitória do oponente estaria garantida. Mas os acontecimentos recentes parecem saídos de uma ficção de rara intensidade. As sondagens anunciam uma quebra das intenções de voto em Macron e Le Pen já pontua cerca de 40%.

Impossível, dir-nos-iam todos até há umas semanas: a Frente Nacional seria sempre esmagada, mesmo passando a uma segunda volta. A húbris das elites políticas e económicas foi contar com um desfecho mecânico. Marine Le Pen não é um fenómeno novo. Ela beneficia de uma implantação territorial sólida e suavizou a imagem do partido fundado pelo pai. E a sua normalização foi facilitada pela colagem da direita democrática às suas propostas, de Sarkozy a Fillon.

O cenário parece saído de um manual. A dívida pública francesa trepou 30% do PIB em dez anos. O crescimento económico é anémico, oscilando nos anos de Hollande entre 0,2% (2012) e 1,2% (2016). Uma nação pressionada pela crise, com um partido de extrema-direita bem implantado, faz dos imigrantes os bodes expiatórios da sua situação. E, tal como nas eleições americanas, um combate entre uma candidatura de sistema, que não entusiasma, e uma demagoga, com um grupo fiel, cria as condições para uma catástrofe.

É neste aperto que subitamente todas as baterias se viram para Mélenchon. A sua ambiguidade, recusando apoiar Macron, é a húbris final desta tragédia: aprofunda a normalização de Le Pen e menoriza o perigo com que a França e a UE estão confrontadas. O tacticismo não abona a seu favor, mas revela como conhece bem os seus apoiantes mais fervorosos. Na consulta interna, em que só participaram 243 mil pessoas, uns estrondosos 65% preferem abster-se ou votar em branco e nulo.

Consultar​ o movimento para definir a sua posição na segunda volta poderia ser uma boa estratégia de consolidação. A definição da política francesa, marcada pela fragmentação partidária e pela descrença nos partidos, segue nas legislativas em Junho. E os 19% da France Insoumise abrem espaço à disputa da liderança na esquerda francesa. Mas Mélenchon desertou do primeiro combate e confia nos outros para fazerem a barreira à extrema-direita. Isso é dificilmente um registo digno de um candidato a primeiro-ministro. Tenho esperança que a maioria dos seus sete milhões de votantes se mobilize em sentido oposto.

Apesar do repúdio que a atitude de Mélenchon me suscita, ele não apelou ao voto na extrema-direita. Vários estudos indicam que o reforço eleitoral de Marine Le Pen vem dos apoios de Fillon, apesar dos apelos em sentido contrário. Derrotada ou não, Le Pen tem campo fértil para avançar no futuro. E a irresponsabilidade da equivalência entre o liberalismo e o fascismo e a recusa do frentismo na esquerda iliba Macron e o seu vazio, o apoio dos gaulistas de Dupont-Aignan e a decisão dos muitos votantes envergonhados que, não admitindo nas sondagens, tornarão a Frente Nacional o maior partido nas urnas. Domingo que vem, a Europa toda vai a votos.

O autor escreve segundo a antiga ortografia.

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