Joaquim Cunha: “Houve uma aposta consistente na indústria da saúde e isso deu-lhe resistência”

Os Estados Unidos decidiram mergulhar o mundo numa guerra comercial e os medicamentos não escapam, mas o diretor executivo do HCP considera que o setor português está mais robusto e com capacidade de absorver estas perturbações. Ainda assim, continua a faltar uma política industrial que olhe para a saúde como um dos motores do crescimento nacional, enquanto no SNS o problema é sobretudo de gestão.

Joaquim Cunha: “Houve uma aposta consistente na indústria da saúde e isso deu-lhe resistência”
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Depois de um ano dominado pela tempestade tarifária lançada por Donald Trump, que isolou o setor farmacêutico na guerra comercial, as exportações portuguesas irão sofrer, mas a maturidade construída nos últimos anos ajuda a resistir, projeta o diretor executivo do Health Cluster Portugal (HCP), Joaquim Cunha. Internamente, o SNS necessita sobretudo de melhor gestão, enquanto os partidos devem abandonar a guerrilha e firmar um pacto em torno dos seus consensos.

O setor da saúde vinha a afirmar-se como um dos principais exportadores nacionais, mas o comércio internacional sofreu, entretanto, um forte rombo. Como viu o último ano da fileira da saúde?
2025 foi o melhor ano de sempre de exportações da saúde. Isso é inquestionável. Já temos alguns números deste primeiro trimestre e há uma descida. Tanto quanto conseguimos perceber, a descida é sobretudo em algo que começou a aparecer nos últimos anos e que, no meu entender, dá um sinal positivo – o nosso ecossistema passou a estar na rede mundial e há produtos que passam por aqui para alguns acabamentos. Isso acontece sobretudo em dinâmicas associadas às grandes multinacionais. É um produto semiacabado que entra aqui. Em 2025, as exportações ultrapassaram os cinco mil milhões de euros; em 2026, a ver vamos. Não tenho grandes dúvidas, pelos números que conseguimos obter do primeiro trimestre, que vão descer – sobretudo nesta componente que lhe falei há pouco.

E o que projeta para o futuro próximo, tendo em conta estas perturbações no comércio global?
Em termos mais abrangentes, quanto à exposição do nosso ecossistema à turbulência que o mundo está a assistir, sobretudo no que decorre das tarifas, não creio que será muito visível. Talvez seja uma das vantagens de ser uma pequena economia, não vamos ter grandes alterações – pelo contrário. Admito que seja eu a querer ser muito otimista, mas estou em crer que não afetará.

Há aqui uma certa maturidade que permite ter uma resistência a estes choques que não se verificava há 10 ou 15 anos.
Sem dúvida. E acrescentava que este mercado, sobretudo o mercado global da saúde, nestas áreas do dispositivo médico e da farmacêutica, é muito difícil, muito protegido. Muitas vezes não é por medidas protecionistas clássicas, mas porque são muito regulados. Isto faz com que, para entrar num determinado mercado, seja um ‘dia de juízo’ e seja preciso cumprir mil e uma especificações. A parte positiva disto é, uma vez passado este calvário, também há uma certa estabilidade. E julgo que poderemos estar a beneficiar disto. Houve uma aposta consistente da indústria nacional ligada à saúde nos últimos dez anos, em que teve um crescimento constante e positivo. Isso deu-lhe uma certa resiliência e estabilidade, sobretudo nos mercados mais apetecidos, que é, obviamente, o norte-americano, mas também os europeus.

Como vê esta tendência dos EUA de usarem política comercial para atingir objetivos políticos internos?
Fomos assistindo a diferentes medidas e posicionamentos por parte do presidente Trump, em que usou as tarifas para política quase comum, e depois esbarrou no tema da saúde. Quando chegou ao tema da saúde, começou a abrir exceções, como os genéricos – se assim não fosse, teria muita pressão interna nos preços. Isso entra no bolso dos consumidores e aquele objetivo de equilibrar orçamentos entre países saiu-lhe pela culatra. Mas os operadores globais pesam, usam e medem todas as variáveis. Porventura, nos seus planos passaram a reconsiderar reforçar as fábricas algures nos EUA. Não é fechar unidades noutros países e levá-las para os EUA, mas sublinhou uma tendência de privilegiar os investimentos nos EUA. Isso, custa-me dizer, mas terá sido um efeito positivo destas ameaças. Não sei é se funcionará a longo prazo. Na pandemia, toda a gente fez juras de que não há mais fugas ou transferências para Ocidente ou Oriente, porque [a saúde] era uma questão de soberania; mas não aconteceu nada. A Europa, de facto, está a perder competitividade nesta área. Há uma drenagem para os EUA e a China.

O que pode o país fazer para travar essa tendência?
Não consigo não ser crítico da ausência de uma política industrial. Não digo o planeamento e estratégia, isso parte de cada empresa; mas depois há a dimensão da política industrial, que temo que esteja ausente. É um tema recorrente há um par de anos. Julgo que não é razoável esperar que Portugal possa ter números de exportações comparáveis com a Alemanha ou França; mas é razoável pensar em compararmos com a Irlanda, Dinamarca ou outras economias mais ou menos semelhantes à nossa. Até porque temos alguns ingredientes, com um SNS que, com todos os defeitos e a pressão que mantém, compara relativamente bem em termos em termos internacionais. No HCP há muitos anos que constatamos que dificilmente teremos um sistema de saúde sustentável se o cluster em que está inserido não foi competitivo e vice-versa. Há vasos comunicantes e interdependências, o que nos leva novamente ao ponto da ausência de uma política industrial. Por vezes, a poupança imediata pode-se traduzir numa perda de oportunidade a médio prazo.

Precisamente olhando para o SNS, continuam as queixas dos utentes e a perceção que a situação não está a melhorar. Como vê o serviço público?
Não acho que o SNS esteja tão mal quanto isso. Sobretudo naquelas áreas mais pesadas, em tratamentos de maior responsabilidade e de maior risco, o desempenho do SNS é manifestamente positivo e não tenho dúvidas que compara muito bem com o que se faz noutros países. Julgo que o grande problema é o acesso. E confesso que não percebo como é que os políticos não resolvem isso, porque é mais fácil do que as áreas mais complexas. Há uma questão incontornável, a dos recursos humanos. Como ficamos mais velhos, passamos a ser mais clientes e clientes mais intensivos do sistema de saúde, e este não cresceu ao mesmo ritmo. Em última análise, é um problema de gestão. Não digo que quem gere o faça mal, mas não tem as ferramentas.

O que seria necessário a nível político para mudar este cenário?
Não sei se é possível tirarmos isto da luta político-partidária. Os argumentos que hoje o PS usa para zurzir a AD são tal e qual os mesmos que há três anos o PSD usava para zurzir o PS. Se é assim, ponham-se de acordo sobre o essencial. Aí estou de acordo com o desafio lançado pelo Presidente da República. Não sei se será possível, mas acho que merece o benefício da dúvida. Era importante um pacto, sobretudo sobre os pontos principais, porque se estamos de acordo, então pelo menos tiremos isto da guerrilha e concentremo-nos na resolução dos mesmos.

E do lado operacional?
É preciso resolver os problemas e acho que aqui é mesmo a questão da gestão. Vejamos, a hospitalização privada tem andado nos 30%, sobretudo nas componentes mais ligeiras, mas os privados não são milagreiros nem mais inteligentes e conseguem gerir as suas unidades, mesmo tendo também dificuldades de recursos humanos e já começando a ter, em alguns casos, fila de espera. A questão é que conseguem usar ferramentas de gestão que estão disponíveis e que são usadas em todo em todo o lado. O SNS tem cerca de 150 mil pessoas a trabalhar – a maior parte, acho, mal pagas. Temos de encontrar formas de as motivar, seja com incentivos, prémios… Enquanto não fizermos isto, vai ser complicado e estamos a desperdiçar recursos. A direção executiva (que, para mim, fazia todo o sentido ter esta ‘camada’ de gestão) teve aqueles problemas da mudança de titular, de Governo, e hoje ‘nem é carne, nem é peixe’. Uma das ideias por detrás da direção executiva era assumir a parte técnica e libertar a ministra; mas isso não está a acontecer, quem responde é a ministra. É algo que tem de ser trabalhado. É uma questão de interesse nacional.

Olhando para o próximo ano, o que gostaria de ver no setor?
Gostaria que definitivamente assumíssemos a saúde como o maior ou um dos mais importantes motores do desenvolvimento económico e social do país. Devemos olhar a saúde no seu todo: não só os aspetos ligados à prestação dos cuidados, não só o SNS, mas todo o cluster nacional. Além de tratarmos da saúde, tem um efeito muito importante enquanto motor do desenvolvimento. Esta visão tem vindo a ganhar adeptos, mas ainda não é algo assumido e natural. E gostaria muito que fosse, até porque tem consequências positivas para muitas dos problemas que temos em mão, além de catapultar a pujança desta área em termos de mercado externo e da atratividade dos investimentos estrangeiros no nosso país.

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