Redação

¡Hala Madrid!

Como de costume, nessa tarde de 25 de Outubro o Santiago Barnabéu está cheio. Mas hoje mais do que nunca. Se ganhar o jogo, o Real Madrid passa para a frente do campeonato, cuja liderança pertence nessa jornada ao eterno rival Barcelona, com um ponto de avanço.
O encontro nem começa bem para as hostes dos ‘merengues’. Logo aos 3 minutos, o astro Neymar marca para os catalães. Mas Cristiano, Pepe e Benzema hão-de dar a volta ao assunto. E, no final, o resultado é ‘um’ para a cidade condal e ‘três’ para o resto do mundo – já perceberam, eu se fosse espanhol era do Madrid!
O Real Madrid, de vitória em vitória – é o clube europeu com mais Taças dos Campeões e o espanhol com mais títulos nacionais -, não tem, em termos históricos, rival desportivo no Velho Continente, e é uma das marcas mais conhecidas do mundo. A administração do clube investe milhões todos os anos para que os hinchas festejem nas Cibeles, a ‘magna mater’ do espírito madridista.
Mas, apesar da modernização, o futebol europeu ainda vive muito dos adeptos e das suas contribuições. A mundialização do desporto-rei, como âncora de grandes investimentos – uma final da Liga dos Campeões ou do Campeonato do Mundo são das transmissões televisivas mais vistas do planeta -, trouxe a visibilidade a que as grandes marcas de consumo precisam de estar associadas.
Pouco a pouco, os clubes da paixão passaram a ‘apaixonar’ magnatas. E são bons para dar um aspecto simpático a dinheiro que, de outro modo, não teria bom perfume. O petróleo é pioneiro nessas ‘refinarias’. Seja russo ou árabe, ataca a Europa – e também a América do Sul, onde pontificam outros grandes emblemas do futebol. E dá jeito às depauperadas finanças dos grandes clubes.
No futebol, não se fazem muitas perguntas de onde é que vem o dinheiro. O que é preciso é que no final do ano ele se transforme em campeonatos, como Midas poderoso e feiticeiro da sociedade moderna. Mas tem um preço. E o Real Madrid pode estar prestes a pagá-lo.
A IPIC-International Petroleum Investment Company, criada pelo Governo de Abu-Dhabi em 1984 para projectos no exterior, é hoje o principal parceiro económico do Real Madrid. À empresa global – que detém, entre outras participações, mais de 4% da EDP – juntou-se no passado mês de Novembro o Banco de Abu-Dhabi, controlado, como quase tudo por aqueles lados, pela família real do emirato.
E aqui é que a porca torce o rabo. O emblema do Real Madrid, com excepção de um breve interregno durante a República dos anos 30, sempre teve na parte de cima uma coroa (real), encimada pela cruz cristã, à semelhança da que era usada por Afonso XIII, o rei que é dado como o unificador do futebol espanhol na segunda década do século passado.
Agora pode estar prestes a perdê-la. É que os sócios muçulmanos não vêem com bons olhos um símbolo que lhes lembra as Cruzadas. E Florentino Pérez, o presidente do Real, meteu o rabo entre as pernas, como cachorro assustado e obediente – vai-se a cruz, ficam os dólares! Os adeptos mais tradicionais é que parece que não estão a gostar nada do negócio.
O problema nem sequer é novo – até atacou primeiro o rival. O FC Barcelona, que orgulhosamente demorou tempo a chegar à época dos patrocínios, lá se ‘vendeu’ à Qatar Sports Investment, e hoje usa o símbolo da Qatar Airways. A cruz de Sant Jordi, que aparecia na parte superior esquerda do emblema, desapareceu nos equipamentos vendidos nos países árabes e outros muçulmanos.
Um qualquer Nasser também comprou a maioria do capital do Paris Saint-Germain (PSG). E o símbolo católico de Luís XV, que fazia parte do emblema, foi apagado. Os grandes clubes do mundo estão todos a ser comprados pelo petróleo árabe, que um dia vai desaparecer, e há que ‘diversificar’ investimentos. Arsenal, Milan, Hamburgo e Flamengo já constam do port-folio da Fly Emirates. O Manchester City foi recuperado das cinzas pelo sheik Mansour e o seu Abu Dahbi United Group.
Há muitas maneiras de conquistar uma civilização. E nem todas têm que ser à bomba. Há muitas maneiras de glorificar a Deus. Às vezes, basta uma inflexão ortográfica para perverter uma invocação antiga ¡Hala Madrid!

(Por vontade expressa do autor, este texto não segue o novo acordo ortográfico)

Márcio Alves Candoso
Jornalista

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