O primeiro motivo são as riquezas minerais que teoricamente poderão ser acedidas com a aceleração do aquecimento global negado por Donald Trump, que afeta cada vez mais a camada que no inverno chega a três quilómetros de gelo e cobre todo o interior da maior ilha não continental do planeta.
Isso significa a possibilidade de extração de petróleo e gás, mas principalmente de minerais do subsolo da Gronelândia. Entre os elementos presentes destacam-se as famosas terras raras, motivo de cobiça global e outra fixação de Trump —afinal, a sua rival China controla a maior parte das reservas globais.
Esses elementos são vitais para a indústria de alta tecnologia, com amplas aplicações militares. Em dois locais da Gronelândia há 66% das reservas não chinesas das chamadas terras raras pesadas, as mais importantes para essas aplicações.
Além disso, existem os já citados hidrocarbonetos, lítio fundamental para baterias, grafite, níquel, cobre e minerais críticos. Tal exploração não é, contudo, garantida: os cientistas alertam que o degelo tornará o solo instável e propenso a desmoronamentos.

As rotas marítimas do Ártico
Já o gelo do mar, que retrocedeu em torno da ilha em 30% nos últimos 40 anos, leva à segunda razão económica e geopolítica: o controlo potencial de rotas marítimas em caso de conflito.
Passam perto da Gronelândia caminhos que o aquecimento abre mais a cada ano: em 2036, o oceano Ártico só deverá ser intransponível no inverno junto à costa nordeste da ilha, o restante poderá ser aberto por quebra-gelos – a Rússia tem uma frota de seis navios gigantes com propulsão nuclear para esse efeito.
Moscovo tem a iniciativa de usar essas rotas, estabelecendo o contato entre São Petersburgo e a costa oeste da China. O Canadá, por sua vez, sempre lutou para operar uma rota semelhante do seu lado do Pólo Norte.
Já a ponte Ártica que ligaria a Rússia e os EUA está, por agora, morta por motivos políticos, enquanto a Rota Transpolar, por convenientes águas internacionais, ainda não é navegável de forma constante.
Um desejo com 80 anos
Por fim, mas não menos importante, há a questão estratégica. Washington dá atenção especial à Gronelândia desde o fim da Segunda Guerra Mundial, quando tentou comprar pela primeira vez a ilha que ocupou de 1941 a 1945 para evitar que os nazis que estavam na Dinamarca chegassem perto dos EUA.
A mítica base aérea de Thule, hoje Base Espacial de Pituffik, no noroeste da ilha, é base radares e controlo de satélites vitais para a proteção da América do Norte contra ataques nucleares. O Ártico, afinal, é o caminho mais curto entre silos terrestres russos e chineses e os seus alvos nos EUA.
Atualmente, a instalação tem 150 militares e civis, alguns gronelandeses. No ano passado, a sua comandante foi demitida após criticar a política norte-americana para a região logo depois de uma visita ao local do vice de Trump, J. D. Vance
Trump só fala nesta última questão para enfatizar a importância de controlar a ilha. O presidente norte-americano diz que a Gronelândia está exposta a ataques de adversários, ignorando não só os 85% de locais que rejeitam mudar de governante. E esquece igualmente a presença americana e do fato de que a Dinamarca, cujo reino é integrado pelo território de 57 mil pessoas, é parte da NATO (Organização do Tratado do Atlântico Norte). A aliança militar foi criada pelos EUA em 1949 para conter a expansão soviética na Europa. Trump nunca escondeu seu desprezo pela entidade, que na gestão atual reagiu ao mesmo tempo elevando seus gastos militares e exagerado o investido pelos EUA.
Com 32 membros, alguns rivais entre si, a NATO nunca viu um de seus integrantes atacar diretamente o outro. Isso daria um curto-circuito no seu papel fulcral: o de defesa mútua em caso de agressão.
A Dinamarca, de todo modo, com seus 15,4 mil soldados, nada poderia fazer contra os 1,3 milhões de militares dos EUA, sem mencionar o seu armamento.
Na ilha, Copenhaga até tenta mostrar serviço. Após as primeiras declarações de Trump sobre a sua vontade de ter o território, reforçou a sua presença com 7 dos 12 barcos-patrulha que tem com uma fragata, além de anunciar o posicionamento de caças F-16 e helicópteros no local.
Na prática, claro, isso é insuficiente. Mas na hipótese de um ataque russo, os EUA e aliados europeus estariam perto para intervir. Por isso a primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, não exagera ao dizer que uma ação contra a Gronelândia irá acabar com a NATO.