Filipe Garcia, Economista Conselheiro; IMF, Informação de Mercados Financeiros

Guerra e taxas de juro

A variável crítica é o tempo. Se a guerra continuar, a inflação subirá e o BCE arrisca-se a utilizar a ferramenta errada para o problema.

O conflito no Médio Oriente reativou o receio de um novo choque inflacionista. A variável crítica é o tempo: quanto mais se prolongar o conflito, maior a probabilidade de contágio aos preços. A escalada dos preços do petróleo e do gás tem efeitos imediatos na confiança dos agentes económicos e pode capilarizar-se em todo o tecido económico. Os preços dos combustíveis fazem subir os custos de transporte de mercadorias e passageiros. O gás mais alto, num contexto em que a Europa apresenta stocks abaixo da média histórica, impacta diretamente nos custos de algumas indústrias e indiretamente no preço da eletricidade.

Pelo Estreito de Ormuz circulam fluxos vitais de outros produtos como alumínio e fertilizantes, a que se somam a subida dos fretes e os constrangimentos logísticos no Canal de Suez e na aviação de carga.

Embora não se registe ainda uma subida generalizada de preços, o receio de uma nova vaga inflacionista é compreensível. Mas, tal como em 2022 após a invasão da Ucrânia, surgirão narrativas para sustentar aumentos sem respaldo na realidade, às quais os consumidores devem estar atentos. Já há quem se esteja a aproveitar.

Se a guerra for demorada, a inflação irá subir mesmo que a economia desacelere. Os mercados já reagiram: na Zona Euro, a taxa Euribor a 1 ano subiu mais de 30 pontos base para 2.552% (máximos de mais de um ano), descontando pelo menos uma subida de taxas este ano. Apesar da prudência verbal dos responsáveis do BCE, há sinais de que a instituição poderá endurecer a política monetária se a inflação acelerar.

No entanto, mantenho sérias reservas quanto à utilidade de elevar juros perante choques exógenos. Ao contrário de um cenário de sobreaquecimento da procura, juros altos face a custos de energia elevados acabam por ser, eles próprios, um fator de indução inflacionista através do agravamento dos custos financeiros das empresas. Em 2022, o BCE agiu bem ao abandonar as taxas negativas, mas os 4% atingidos nos dois anos seguintes acabaram por penalizar excessivamente o investimento, o consumo das famílias e a confiança.

Em resumo, se a guerra continuar, a inflação subirá e o BCE arrisca-se a utilizar a ferramenta errada para o problema. Por outro lado, se a guerra terminar no primeiro semestre, o foco deverá desviar-se rapidamente para os riscos no crédito privado — o chamado shadow banking — que poderá exigir liquidez e taxas mais baixas para garantir a estabilidade do sistema.

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