Governo justifica prémio na aquisição de 13,7% da REN com influência e dimensão da operação

No briefing do Conselho de Ministros, o ministro da Presidência, António Leitão Amaro, explicou que a aquisição de participações relevantes em empresas cotadas é normalmente feita através de negociações bilaterais, com base numa média histórica da cotação e um prémio associado à influência que a participação confere.

Governo justifica prémio na aquisição de 13,7% da REN com influência e dimensão da operação
FILIPE AMORIM/LUSA

O Governo justificou esta quinta-feira, 20 de agosto, o prémio a pagar pelos 13,7% da REN com o peso da participação na empresa e o impacto que uma compra desta dimensão teria no preço em bolsa, remetendo o valor final para as Finanças.

No briefing do Conselho de Ministros, o ministro da Presidência, António Leitão Amaro, explicou que a aquisição de participações relevantes em empresas cotadas é normalmente feita através de negociações bilaterais, com base numa média histórica da cotação e um prémio associado à influência que a participação confere.

O ministro foi questionado sobre o valor da operação, nomeadamente sobre a indicação de que o preço acordado estaria 17% acima do valor de mercado face ao dia do anúncio situando-se em 380 milhões de euros, como noticiou o Jornal Económico.

Leitão Amaro remeteu os detalhes para o Ministério das Finanças, salientando que o processo está ainda pendente de avaliação pelo Tribunal de Contas, mas explicou que a aquisição de participações relevantes em empresas cotadas é normalmente feita com base num valor histórico da cotação, ao qual acresce um prémio.

“Tipicamente, são feitas pelo histórico da cotação mais um prémio X que é depois acordado entre as partes”, afirmou.

O ministro acrescentou que o prémio se justifica, entre outros fatores, pelo peso da participação adquirida. A posição de 13,7% que o Estado pretende comprar à Pontegadea, da família Ortega, dona da Zara, será a segunda maior da REN, atrás dos 25% detidos pela chinesa State Grid.

“Aquela participação, que é a segunda maior e é metade da maior participação na empresa, tem de facto um poder inerente”, afirmou, defendendo que esse valor deve ser considerado além do preço de mercado.

O ministro justificou também a opção por uma aquisição negociada em vez de uma compra gradual em bolsa, lembrando que a REN tem poucas ações transacionadas diariamente e uma liquidez limitada.

“Num mercado relativamente pequeno, com uma liquidez limitada como a REN, o tempo que demoraria a adquirir uma participação deste tipo teria duas consequências”, afirmou.

Explicou que demoraria mais tempo até atingir a participação pretendida, atrasando os objetivos estratégicos da operação, e a execução de um grande número de ordens de compra poderia provocar um aumento do preço.

Questionado sobre o objetivo concreto da entrada do Estado no capital da REN, Leitão Amaro afirmou que a questão não é saber se deve existir um acionista estatal na empresa, uma vez que a rede elétrica nacional já tem um acionista público, embora estrangeiro, referindo-se à chinesa State Grid.

“O que está em questão é saber se, além deste, também terá um segundo que já agora é do país, o Estado português”, afirmou.

O ministro defendeu que a presença do Estado na REN responde a razões de “soberania e segurança energética” e recordou que o primeiro-ministro, Luís Montenegro, já tinha admitido esta possibilidade antes de assumir funções.

“Em nenhum país da Europa [o Estado] está fora da rede elétrica. São razões de soberania e segurança energética”, afirmou.

Leitão Amaro sublinhou, contudo, que a função acionista não substitui as restantes funções públicas no setor energético, mas complementa-as, referindo a posição do Estado enquanto concedente da rede e a função de regulação, exercida por um regulador independente (ERSE).

O ministro enquadrou ainda a entrada do Estado na REN no desafio de aumentar a eletrificação do país e o investimento na produção, distribuição e transporte de energia elétrica.

Segundo Leitão Amaro, o esforço de aumentar a oferta, a distribuição e o transporte de eletricidade deve ser realizado numa perspetiva de sustentabilidade e sem agravar os custos para os consumidores.

O ministro afirmou ainda que a operação para chegar a acordo para a entrada no capital da REN só foi possível com as características e relevância atuais porque foi conduzida “com discrição, mas nunca com opacidade”.

Quanto a mais detalhes sobre o negócio, remeteu sempre para as Finanças: “O processo de compra está pendente de avaliação pelo Tribunal de Contas. Os seus termos finais dependem disso mesmo”, afirmou, acrescentando que as explicações serão dadas “no momento próprio”, quando o processo estiver concluído.

A aquisição pela Parpública da participação de 13,7% na REN – Redes Energéticas Nacionais vai ser feita por 380 milhões de euros, o que representa um prémio de 17% face à cotação da empresa a 14 de agosto, quando foi comunicado o negócio.

Este valor representa um acréscimo de cerca de 55 milhões de euros para a compra das 91.723.676 ações que a espanhola Pontegadea Inversiones detém na empresa liderada por Rodrigo Costa, face ao fecho de sexta-feira, e está inscrito no contrato que foi enviado para o Tribunal de Contas, apurou o Jornal Económico.

A conclusão da operação está condicionada à concessão de visto pelo Tribunal de Contas.

A Parpública beneficiou de um aumento de capital de 42,77 milhões de euros, registado no mesmo dia em que foi anunciada a operação. O capital da holding pública passou a ser de 2.042 milhões de euros.

Os resultados líquidos da holding do Estado aumentaram 19,4% no ano passado, face ao anterior, para 233,4 milhões de euros.

No portefólio da Parpública estão participações em 19 empresas. Nove destas são detidas na totalidade, como a AdP – Águas de Portugal, a Companhia das Lezírias ou a imobiliária Estamo. Outras são minoritárias, mas relevantes, como a de 8,42% na Galp ou de 45% no Hospital da Cruza Vermelha.

Fim da exceção

Portugal é o único dos 27 Estados-membros da União Europeia (UE) sem qualquer participação pública nacional no operador da rede de transporte de eletricidade, o que será alterado se se concretizar a compra pela Parpública da participação na REN.

Um levantamento comparativo sobre a titularidade das redes elétricas na UE mostra que em 14 países a rede é detida a 100% pelo Estado: Bulgária (ESO/BEH), Croácia (HOPS/HEP), Chipre, Chéquia (ČEPS), Dinamarca (Energinet), Estónia (Elering), França (RTE), Hungria (MAVIR/MVM), Letónia (AST), Países Baixos (TenneT NL), Polónia (PSE), Eslováquia (SEPS), Eslovénia (ELES) e Suécia (Svenska kraftnät).

Depois, em oito países, a titularidade do capital é mista, repartida entre público e privado, mas o Estado detém a maioria.

Relacionado

Reservas de gás da União Europeia estão no nível mais baixo em 15 anos

Reservas de gás da União Europeia estão no nível mais baixo em 15 anos

Ruben Pires3 Set
De acordo com a publicação BiGo Finance o nível de reservas de gás que a União Europeia detém nesta altura deve-se a um erro de cálculo. O bloco europeu vinha adiando as compras de gás na expetativa de que o conflito no Médio Oriente, que se iniciou em fevereiro entre Estados Unidos, Israel, e Irão, tivesse um desfecho rápido, permitindo que o gás natural vindo do Qatar voltasse a passar pelo Estreito de Ormuz a um preço mais baixo. Contudo o cenário de momento não se concretizou.