Governador do Banco de Portugal disse que reforçou regras do crédito à habitação para travar riscos no imobiliário

Na Comissão de Orçamento e Finanças (COFAP), realizada esta quinta-feira, e de acordo com a sua intervenção inicial publicada esta sexta-feira, Álvaro Santos Pereira sublinhou que a estabilidade financeira “não pode esperar pela materialização dos riscos”, apontando para uma combinação de fatores que têm vindo a agravar vulnerabilidades: subida acelerada dos preços das casas, crescimento expressivo do crédito às famílias e sinais de maior risco na concessão de empréstimos.

Governador do Banco de Portugal disse que reforçou regras do crédito à habitação para travar riscos no imobiliário
O governador do Banco de Portugal, Álvaro Santos Pereira, durante a conferência de imprensa para apresentar o Boletim Económico de junho, Lisboa, 15 de junho de 2026. ANTÓNIO COTRIM/LUSA

O governador do Banco de Portugal defendeu no Parlamento a necessidade de agir preventivamente face aos sinais de risco no mercado imobiliário, anunciando o reforço das regras macroprudenciais sobre o crédito à habitação, com novas medidas a entrarem em vigor a 1 de agosto.

Na Comissão de Orçamento e Finanças (COFAP), realizada esta quinta-feira, e de acordo com a sua intervenção inicial publicada esta sexta-feira, Álvaro Santos Pereira sublinhou que a estabilidade financeira “não pode esperar pela materialização dos riscos”, apontando para uma combinação de fatores que têm vindo a agravar vulnerabilidades: subida acelerada dos preços das casas, crescimento expressivo do crédito às famílias e sinais de maior risco na concessão de empréstimos.

Entre 2015 e 2025, os preços da habitação em Portugal aumentaram 164%, muito acima dos 61% registados na União Europeia, tendo crescido 17,6% só no último ano — o valor mais elevado da Zona Euro. Ao mesmo tempo, o crédito à habitação está a expandir-se a ritmos superiores a 10%, com o montante médio dos empréstimos a aumentar e uma maior proporção de clientes considerados de risco elevado.

O governador destacou ainda que 54% das compras de casa foram feitas com recurso a crédito bancário em 2025, mais 10 pontos percentuais do que no ano anterior, e que o endividamento das famílias está a crescer ao ritmo mais rápido desde a crise financeira de 2008, interrompendo a trajetória de redução dos últimos anos.

Apesar de afastar um cenário “alarmante”, dado que os níveis de incumprimento permanecem baixos, o Governador do Banco de Portugal considera que há sinais suficientes para justificar uma intervenção preventiva. O Relatório de Estabilidade Financeira identifica mesmo uma eventual correção no mercado residencial como o principal risco interno para a economia.

Neste contexto, o supervisor decidiu rever a recomendação macroprudencial em vigor desde 2018. Entre as principais alterações está a redução do limite da taxa de esforço de 50% para 45%, bem como o aperto das exceções a este indicador. Foram também introduzidos novos limites máximos de maturidade dos empréstimos — 40 anos para mutuários até aos 35 anos e 35 anos para idades superiores — e eliminadas algumas regras anteriores, incluindo o limite de financiamento a 100% para imóveis detidos pelos bancos.

Segundo o governador, estas mudanças visam assegurar que o crédito continua a ser concedido “com prudência e responsabilidade”, num contexto de forte dinamismo do setor imobiliário.

O responsável defendeu ainda que estas recomendações devem passar a ser vinculativas, à semelhança do que já acontece na maioria dos países da União Europeia. Atualmente, Portugal está entre um pequeno grupo de Estados-membros onde estas orientações não têm caráter obrigatório.

Essa posição é alinhada com o Fundo Monetário Internacional, que recomendou recentemente o reforço dos poderes do Banco de Portugal nesta matéria, no âmbito da avaliação ao setor financeiro nacional.

Apesar de reconhecer dificuldades no acesso à habitação, o governador sublinhou que a prioridade da instituição é garantir a solidez do sistema financeiro e evitar situações de sobre-endividamento, lembrando os custos económicos e sociais de crises passadas.

“A estabilidade financeira é um bem público”, afirmou, defendendo que uma política macroprudencial eficaz deve equilibrar o acesso ao crédito com a prevenção de riscos sistémicos.

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