Fusões e aquisições em Portugal atingem 1,9 mil milhões até novembro a caírem 46%

O valor operações de M&A que partiram de empresas portuguesas com target em empresas de outras geografias situou-se perto dos 950 milhões de euros, o que significa uma descida de 50% face aos primeiros 11 meses de 2023. Portugal contrasta com a subida de M&A a nível global.

Fusões e aquisições em Portugal atingem 1,9 mil milhões até novembro a caírem 46%
Bain & Company

O estudo “Look Back at M&A in 2024: Dealmakers Adapt as the Market Idles”, que a Bain & Company acaba de publicar revela que em Portugal, até ao final de novembro, o valor das operações foi de cerca de 1,91 mil milhões e foram registadas 90 operações, o que traduz uma descida homóloga, respetivamente, de 46% e 28%.

O valor operações de M&A que partiram de empresas portuguesas com target em empresas de outras geografias situou-se perto dos 950 milhões de euros, o que significa uma descida de 50% face aos primeiros 11 meses de 2023.

Álvaro Pires, partner da Bain & Company, revela que “os sectores com maior preponderância nos negócios inbound – manufatura e serviços avançados – e outbound – energia e recursos naturais, recuaram ambos perto de 50%”.

Duas das maiores operações nos primeiros onze meses do ano, foram a aquisição pela First Sentier Investors  (grupo Finerge) da Auto Estradas do Douro Litoral (AEDL), acima dos 400 milhões de euros, no terceiro trimestre, e a aquisição pela Amadeus IT Group  da Vision-Box por cerca 320 milhões de euros, no primeiro trimestre do ano.

A queda em Portugal contrasta com o mercado global que registou um aumento.

O estudo conclui que o mercado global de fusões e aquisições (M&A) deverá atingir os 3,5 biliões de dólares (3,3 biliões de euros) até ao fim de 2024, um aumento de 15% face a 2023 e um valor em linha com os níveis do meio da década de 2010. O volume de transações subiu 7%, revertendo a tendência de descida dos últimos dois anos.

A consultora salienta que o ano foi marcado por uma adaptação cuidadosa, com os players a ajustarem-se às novas realidades das taxas de juro mais altas e ao intenso escrutínio regulatório.

As tendências variaram de acordo com as áreas das operações. Com as taxas de juro a descer ligeiramente, o private equity e o capital de risco recuperaram terreno, tendo o valor das transações de private equity subido 29% e o capital de risco 30% em relação ao ano anterior.

Já o corporate M&A, que é menos influenciado por pequenos movimentos no custo da dívida, está a caminho de terminar o ano 12% acima de 2023, com crescimento constante em todas as regiões.

A contribuir para esse crescimento está a atividade nas áreas da energia e recursos naturais, indústrias e serviços financeiros, bem como um crescimento expressivo no retalho e telecomunicações. Por seu lado, a tecnologia e as ciências da vida e saúde, típicos pilares de M&A, permanecem bem abaixo dos níveis históricos, revela a Bain.

Estudo da Bain identifica ainda um aumento dos players que participaram em operações de M&A com recurso à Inteligência Artificial generativa durante o ano, reportando que o uso desta tecnologia permite poupar esforço, tempo e custos.

A pesquisa da Bain dá nota que um em cada cinco profissionais de M&A usou IA generativa para atividades de M&A este ano (acima dos 16% em 2023). Outros 16% tencionam usá-la nos próximos doze meses.

“Apesar dos balanços sólidos e da necessidade estratégica de M&A em 2024, os players não viram o impulso positivo que esperavam nas taxas de juro, na vontade dos vendedores em sair e no escrutínio regulatório que impulsionaria uma recuperação total este ano”, refere Suzanne Kumar, vice-presidente executiva da prática M&A and Divestitures da Bain & Company.

“Os negociadores mais eficazes fizeram duas coisas da forma correta: adaptaram-se rapidamente às realidades do mercado – mudando de abordagens tradicionais para abraçar tanto as sinergias de receita como as de custos, e continuaram a aperfeiçoar a sua prática de M&A como compradores frequentes, focando-se em filtrar, negociar e aproveitar novas ferramentas, como a IA generativa, para agilizar o processo”, acrescenta Suzanne Kumar.

Diferença nas expectativas de avaliação entre compradores e vendedores

A pesquisa da Bain a nível global, com mais de 300 executivos de M&A, dá nota que o principal obstáculo à atividade de M&A continua a ser a diferença nas expectativas de avaliação entre compradores e vendedores.

“Um fator-chave que contribui para isso é a distância entre as avaliações estratégicas historicamente baixas de M&A (10,4x EBITDA/EV) e as avaliações de mercado público em máximos históricos (16,6x para o S&P 500)”, diz a consultora.

Em vez de enfrentarem desvalorizações substanciais na saída, os investidores de private equity e capital de risco mantiveram os seus portfólios.

“Empresas privadas e públicas com a opção de manter também o fizeram. Assim, com menos concorrência e falta de urgência, alguns negócios simplesmente prolongaram-se”, revela o estudo.

Com os desafios e litigâncias a prolongarem os prazos de conclusão dos negócios e a impactarem as taxas de negócios concluídos em 2024, quase metade (47%) dos players disseram que as preocupações regulatórias impactaram a tipologia de negócios que a sua empresa considerou este ano.

Segundo a Bain & Company as empresas priorizaram negócios pequenos, discretos, ou grandes negócios com potencial de criação de valor enorme, enquanto retiraram das prioridades os negócios de média dimensão.

Alguns players colocaram os negócios em espera, aguardando o resultado de eleições nacionais ou esperando por mais clareza sobre o futuro ambiente regulatório.

A Bain estima que as mudanças de administrações nos EUA e na UE, bem como as diretrizes atualizadas na Índia e no Japão, prenunciam posturas mais abertas na regulação no futuro, mas a calendarização, grau e alcance de qualquer abrandamento nesse sentido, provavelmente serão desnivelados em função dos sectores e dos mercados

Em 2024, as operações avaliadas em menos de mil milhões de dólares representaram 95% de toda a atividade, e o número dessas operações cresceu pela primeira vez em quatro anos. Os mega negócios – nomeadamente, os que foram avaliados em mais de 5 mil milhões de dólares (4,3 mil milhões de euros) sustentaram o valor das transações.

Por sua vez, os negócios de escala, destinados a reforçar a liderança de mercado e a reduzir a posição de custo através dos benefícios de escala, representaram 59% do valor das transações em 2024 – a maior proporção desde 2015.

Álvaro Pires, partner da Bain & Company considera que “2024 é um ano marcado pelas condições macroeconómicas, alterações geopolíticas e pelo aumento do escrutínio regulatório. Mas, mesmo com essas condicionantes, será também marcado pelo fim de um ciclo de dois anos de descida do volume de operações”.

Por outro lado, a Bain & Company está muito atenta ao impacto da Inteligência Artificial nas suas várias áreas de prática e, “no que diz respeito às operações de M&A, notámos um aumento do recurso à IA generativa e o reconhecimento das suas mais-valias por quem a usou. Essa tendência irá continuar em 2025”, acrescenta.

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