Fundo para impostos da venda de barragens da EDP por implementar

O fundo criado em 2021 para gerir as receitas dos impostos da venda das barragens da EDP no Douro está por implementar há cinco anos, sem que o Governo de Luís Montenegro esclareça a ausência do decreto-lei.

Fundo para impostos da venda de barragens da EDP por implementar
barragens

O fundo criado em 2021 para gerir as receitas dos impostos da venda das barragens da EDP no Douro está por implementar há cinco anos, sem que o Governo de Luís Montenegro esclareça a ausência do decreto-lei.

Em causa está um fundo criado com a lei do Orçamento do Estado para 2021 (OE2021) com o objetivo de assumir as receitas dos impostos do trespasse da concessão das barragens de Miranda do Douro, Picote, Bemposta, Baixo Sabor, Feiticeiro e Tua, que a EDP vendeu no final de 2020 a um consórcio liderado pela elétrica francesa Engie (empresa Movhera).

O fundo foi criado por iniciativa do PSD, quando os sociais-democratas estavam na oposição e o PS liderava o Governo, mas até hoje nem o então executivo de António Costa, nem os dois executivos do PSD e CDS-PP de Luís Montenegro o regulamentaram.

A versão final do OE2021 previa que o objeto e a gestão deste instrumento fossem definidos por decreto-lei no prazo de 90 dias após a venda, depois de ouvidos os municípios onde os aproveitamentos hidroelétricos estão localizados.

A tutela das Finanças do atual Governo não explica a razão do atraso, não tendo respondido à Lusa sobre em que ponto se encontra a regulamentação nem que diligências fez nesse sentido.

Também não esclareceu se o ministro das Finanças, Joaquim Miranda Sarmento, ou a secretária de Estado dos Assuntos Fiscais, Cláudia Reis Duarte, realizaram contactos, reuniões ou interações escritas com a Autoridade Tributária e Aduaneira (AT) para o Governo se assegurar da tempestiva operacionalização do fundo.

Não se sabe quando é que o Governo prevê que o fundo fique operacional e se tal acontecerá no momento em que o Estado português receber as receitas do negócio.

O tema da cobrança dos impostos voltou ao debate público no início de agosto, depois de o Movimento da Terra de Miranda alertar para o risco de caducidade da liquidação de 335,2 milhões de euros de IMT, Imposto de Selo e IRC que o Ministério Público considerou estarem em falta relativamente ao negócio realizado entre a EDP e o consórcio da Engie em 2020.

A legislação prevê a transferência destas receitas para o fundo, bem como metade das receitas de novas concessões, rendas destinadas pelos concessionários aos municípios, ainda o IMI das barragens e a participação dos municípios nas receitas do IVA e IRC.

O OE2021 previa igualmente que, enquanto as receitas não estiverem a ser transferidas para os municípios, “o Estado assegura a sua transferência para o fundo na data em que a mesma é feita para os municípios que são os atuais titulares ou, não estando a ser liquidado o imposto, na data em que o seria, se essa liquidação estivesse a ser efetuada”.

Numa pergunta parlamentar enviada ao Governo em 12 de agosto, ainda não respondida, a bancada do PS questionou o ministro das Finanças sobre o risco de caducidade e quis saber de que forma o executivo prevê garantir a transferência das receitas para os municípios enquanto o fundo se encontra por regulamentar.

O Ministério Público arquivou as suspeitas criminais em torno do negócio no final de outubro de 2025, mas concluiu que o Estado tinha a receber 335,2 milhões, e mandou a AT “proceder à cobrança dos impostos em falta e que não foram pagos”.

O cálculo provisório era, à data, de 120,9 milhões relativos a Imposto do Selo, 99,6 milhões a IMT e 114,7 milhões a IRC, tendo a anterior diretora-geral do fisco, Helena Borges, dito em 21 de janeiro de 2026 no parlamento que a AT iria avançar com a liquidação depois da audição prévia das empresas e de fazer o cálculo final.

O jornal ‘Público’ noticia hoje que a AT já iniciou o processo de liquidação, tendo notificado as empresas envolvidas para pagarem uma parte do Imposto de Selo.

Questionada pela Lusa sobre a cobrança, a EDP escusou-se a confirmar se já foi notificada, remetendo para informações de há três meses, quando fez saber que, em abril, recebeu um relatório de inspeção com “correções propostas em IRC e Imposto do Selo” (dois dos três impostos reclamados pelo fisco).

Na altura, confirmou que irá contestar as liquidações judicialmente. Em relação ao IMT, nada disse.

Relacionado

Finanças exigem impostos da venda de barragens e admitem cobrança coerciva caso EDP não pague

Finanças exigem impostos da venda de barragens e admitem cobrança coerciva caso EDP não pague

Em resposta a perguntas da Lusa sobre se a Autoridade Tributária e Aduaneira (AT) já notificou as empresas envolvidas no negócio da liquidação dos impostos que o Ministério Público considerou estarem em falta (335,2 milhões de euros de Imposto do Selo, IMT e IRC), fonte oficial do Ministério explicou que há processos de exigência da cobrança (notificação dos contribuintes) que já foram concluídos e outros que o serão entretanto.