O empresário Pedro Ferraz da Costa considera que os partidos da direita do espectro político em Portugal deviam juntar-se, em vez de concorrem isolados às próximas eleições, mas não acredita que seja possível construir uma proposta comum a tempo das legislativas.
“Aquela postura que se vive, neste momento, onde todos vêm dizer que querem ir sozinhos [as eleições] para medirem melhor o seu peso evidencia um desprezo total pelas consequências dessa atitude isolacionista”, defendeu Pedro Ferraz da Costa.
“Não podemos pensar que eles não sabem que existe um método de Hondt quando querem fazer esse show individual”, criticou, apontando que esta postura “vai ter consequências nos próximos resultados eleitorais”.
Pedro Ferraz da Costa considera, no entanto, improvável que os partidos de direita consigam um entendimento a tempo das legislativas, esperadas para 10 de março. “As pessoas estavam impreparadas, porque alguém devia ter feito um programa onde alinhasse o que podia ser um pouco um programa comum e, neste momento, está extraordinariamente difícil fazer isso até meados de janeiro; não poderá ser mais tarde do que isso”, disse.
Considerou, também, que qualquer programa que junte os partidos de direita terá como base as propostas do PSD – “que é o partido-charneira de qualquer coisa que se faça à direita” -, o que só poderia ser considerado caso alguém se destacasse nos restantes partidos, o que pensa não existir, com uma exceção, que considera inviável. “Francamente, eu acho que há [uma figura que se destaca], que é o André Ventura. Agora, não acredito é que ele seja palatável, nesta fase, e, portanto, não é possível”, afirmou. “É o único que vive isto profissionalmente, não perde uma oportunidade de afirmar os seus pontos de vista, é corajoso e sabe comunicar. Se olharem à volta, nos outros não existe nada comparável”, justificou. “Acho que, para nós, era muito mau, para o país, que tivéssemos de ficar à espera que chegasse aos 40%, porque se as coisas do nosso lado continuarem desta maneira, ele vai chegar com certeza”, avisou, ainda.
Pedro Ferraz da Costa, é empresário, presidente do Forum para a Competitividade e foi presidente da CIP – Confederação Empresarial de Portugal, foi o orador numa iniciativa do IDL – Instituto Amaro da Costa, que se realizou esta quinta-feira, 23 de novembro, em Lisboa.
A sua intervenção teve como tema “as consequências económicas da instabilidade política” e, nesse quadro, defendeu uma menor presença do Estado na economia, para evitar consequências negativas de períodos de maior inconstância, ainda que defenda que estes possam ter efeitos positivos. “Sempre achei que valia a pena suportar alguma instabilidade se fosse para melhorar, portanto, não me parece que o receio da instabilidade deva ser um fator prioritário”, disse.
“Em relação à instabilidade e à economia, a primeira consideração é que, se o Estado tiver menos peso na economia as empresas andam e a economia anda e há menos impasses causados por sobressaltos políticos, que são normais num sistema democrático e não deviam ter uma influência tão negativa sobre o andamento das coisas”, defendeu. “Outra coisa é que é preciso confiar mais em caminhos de autorregulação ou na utilização de soluções que já existem”, acrescentou.
No final, da sua intervenção, disse esperar que, na campanha eleitoral para as legislativas, “os partidos da direita consigam falar do futuro e que desistam completamente de falar do passado, de justificar as suas posições ou de medir o peso próprio”.
As próximas eleições legislativas foram antecipadas para 10 de março, pode decisão do Presidente da República, depois de António Costa ter apresentado a demissão do cargo de primeiro-ministro, a 7 de novembro, por causa de uma investigação judicial relativa à construção de um centro de dados em Sines e de negócios de lítio e hidrogénio, que levou o Ministério Público a instaurar um inquérito autónomo no Supremo Tribunal de Justiça em que o primeiro-ministro é visado.
Marcelo Rebelo de Sousa ouviu os partidos com assento parlamentar, a 8 de novembro, e depois o Conselho de Estado, no dia seguinte, anunciando em seguida ao país que irá dissolver o parlamento e marcar eleições legislativas antecipadas para 10 de março.
O ministro da Administração, José Luís Carneiro, e o antigo ministro das Infraestruturas Pedro Nuno Santos são os principais candidatos à sucessão de António Costa como secretário-geral do PS e disputarem as legislativas.
“Se medirem o peso próprio, eu estou convencido que a gente irá ter de decidir ou assistir se vamos ter o Pedro Nuno Santos ou o outro senhor [José Luís Carneiro] como primeiro-ministro em Portugal, depois de tudo o que aconteceu e depois de tudo o que vimos nestes últimos anos”, alertou Pedro Ferraz da Costa.
“Acho que é preciso energia, é preciso capacidade para propor coisas novas e acho que se fizermos isso conseguimos vencer as dificuldades”, concluiu.
O IDL – Instituto Amaro da Costa é uma associação política independente, apesar de fazer o seu percurso na área de intervenção do CDS-PP. É presidida por Manuel Monteiro, antigo presidente dos democratas-cristãos.